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Photo by MANDEL NGAN / AFP
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Análise: Um acordo que tem como foco duas eleições, e não a paz no Oriente Médio

O timing não é por caso: em um momento em que a televisão a cabo se concentra no impeachment, Trump teve a chance de se apresentar como um pacificador; Netanyahu, por sua vez, marcha em direção às eleições de março

David E. Sanger, The New York Times

29 de janeiro de 2020 | 18h52

WASHINGTON - Um presidente tentando manter sua força em um julgamento de impeachment esteve com um primeiro-ministro israelense indiciado na terça-feira, 28, para anunciar um plano há muito adiado para resolver o conflito entre israelenses e palestinos, e o resultado soou mais como um roteiro para seus próprios futuros do que para o Oriente Médio.

Para o presidente Donald Trump, é um plano que se baseia em sua decisão de mudar a embaixada dos EUA para Jerusalém –  um enorme sucesso político entre seus doadores judeus e evangélicos que, ao contrário das previsões, não provocou uma reação violenta na região.

Trump agora entra no centro de sua campanha eleitoral, declarando que entregou um plano que faz de Jerusalém a capital indivisa de Israel e relega a capital palestina a um subúrbio, e que Trump, em um triunfo de sua marca imobiliária, está subitamente chamando de “Leste de Jerusalém.”

E o timing não é por acaso: em um momento em que a televisão a cabo se concentra no impeachment e na perspectiva de que o ex-conselheiro de segurança nacional John Bolton possa testemunhar, Trump teve a chance de ficar na Sala Leste e se apresentar como um pacificador. Com rara autodisciplina, ele nunca mencionou a palavra impeachment.

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Por seu turno, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, de Israel, marcha em direção às eleições de março, brandindo o forte argumento de que os israelenses devem ignorar seu indiciamento por corrupção e se concentrar no fato de que, pela força de seu relacionamento com Trump, mobilizou Washington para dar legitimidade permanente aos assentamentos judeus em território disputado.

No domingo, o primeiro-ministro disse que, ao ir para Washington, Israel anexará essencialmente a parte estrategicamente vital do vale do Jordão que seus militares já controlam. À medida que a eleição israelense se aproxima, esses movimentos permitem que ele se apresente como o inspirador de Trump, o homem indispensável que inclinou a Casa Branca à sua vontade.

“Afaste as considerações políticas domésticas e israelenses que determinaram o momento da divulgação do plano”, disse Robert Malley, presidente do International Crisis Group e ex-funcionário do governo Obama, “e a mensagem aos palestinos resumida em sua essência é: vocês perderam, superem isso”.

Alguns dias atrás, Trump disse: “Acho que estamos relativamente próximos, mas precisamos que outras pessoas concordem com isso”. Em outras palavras, o “acordo do século” não era nenhum acordo. E as outras pessoas foram os palestinos, que rejeitaram a proposta e o mapa que o acompanhava terça-feira, horas após a sua publicação.

Para fins eleitorais, Trump não precisa de um acordo; ele simplesmente precisa da impressão de que está sendo feito progresso.

E na Casa Branca na terça-feira, os embaixadores dos Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Omã - mas não da Arábia Saudita, o país que Trump e seu genro, Jared Kushner, mais se esforçaram para conquistar  –  estavam na sala para o anúncio, um aparente endosso de sua abordagem, se não os detalhes.

A presença deles teria sido inimaginável no passado, especialmente para qualquer anúncio que deixasse de criar um verdadeiro estado palestino.

E este certamente está longe dessa meta. O plano de 180 páginas de Trump exigiria que os palestinos aceitassem apenas uma soberania parcial sobre um futuro estado palestino, pelo menos por um tempo considerável, e desistissem de qualquer reivindicação de território onde os israelenses já aceitaram acordos. E pediu que eles apostassem que, como Trump prometeu, eles finalmente ficariam ricos por causa de um fundo de investimento de US$ 50 bilhões, pago por vizinhos árabes.

Há uma reviravolta brilhante: os palestinos não precisam dizer sim ou não por quatro anos. Isso significa que a resposta definitiva só virá até o fim do próximo mandato de Trump, se ele for reeleito. Enquanto isso, Israel congelaria colônias no território que Trump reservou para os palestinos, em grande parte das áreas nas quais os israelenses têm pouco interesse.

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Essa condição adia todas as questões difíceis por vários anos de negociações – com seus inevitáveis colapsos e crises. Mas isso dá a Trump o ponto principal da campanha: ele cumpriu uma promessa de 2016 e propôs uma solução real, em vez de apenas um processo.

A proposta, é claro, ajuda Netanyahu mudando a posição das traves do gol. O status de Jerusalém é estabelecido no documento Trump, em vez de ser objeto de negociação. E enquanto ex-presidentes deram palestras a Netanyahu sobre sua criação de assentamentos judaicos em territórios sujeitos a negociação, o plano de Trump os torna uma proposta permanente.

Para os críticos, essa é a falha fatal.

O senador Christopher S. Murphy, democrata, que estava entre os legisladores informados por Kushner na Casa Branca, chamou a proposta de “um abandono total de décadas da política dos EUA no Oriente Médio”.

Para o primeiro ministro israelense, era um plano feito sob medida para uma eleição daqui a quatro semanas. Tão sob medida que uma dúzia de senadores democratas escreveu em uma carta a Trump na terça-feira que “o momento dessa proposta coincidir com a acusação do primeiro-ministro Netanyahu por suborno também levanta questões perturbadoras sobre sua intenção de intervir no processo eleitoral israelense”.

Sem surpreender, Netanyahu discorda. “É um ótimo plano para Israel”, disse ele, com um entusiasmo que raramente demonstrava durante as visitas à Casa Branca nos anos de Obama. “É um ótimo plano para a paz.” /Tradução de Claudia Bozzo

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