Abedin Taherkenareh/EFE
Abedin Taherkenareh/EFE

Análise: Um conflito com Irã seria pior que a guerra no Iraque

Em termos de força militar convencional, o Irã é bem mais fraco do que os EUA, mas adotou estratégias assimétricas que podem infligir danos aos interesses americanos

Adam Taylor / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2019 | 05h00
Atualizado 17 de maio de 2019 | 13h17

A julgar pelas aparências, EUA e Irã estão próximos de um conflito. A disputa lembra os dias que antecederam a invasão americana no Iraque, em 2003 – que, mais tarde, foi considerada desastrosa. Até alguns personagens são iguais, como John Bolton, assessor de Segurança Nacional de Donald Trump, que teve papel-chave na invasão do Iraque no governo de George W. Bush. 

Mas, apesar das similaridades, um conflito com o Irã não será uma repetição da guerra de 2003. Será muito diferente sob muitos aspectos e, certamente, muito pior. O Irã de hoje é diferente do Iraque de 2003. A maneira como ele travará uma guerra também será outra. O Irã é um país maior. Na época, o Iraque tinha 25 milhões de habitantes. No Irã, são 82 milhões em um território de 1,65 milhão de quilômetros quadrados. O Exército iraquiano tinha 450 mil soldados. Hoje, o Irã tem 523 mil homens e 250 mil reservistas.

Também importante é a localização do país. Diferentemente do Iraque, o Irã é uma potência marítima às margens do Mar Cáspio, ao norte, e do Golfo Pérsico e do Golfo de Omã, ao sul. E divide suas fronteiras com vários aliados dos EUA, incluindo Afeganistão, Paquistão, Turquia e Iraque. Sua localização é importante para o comércio. Um terço dos petroleiros do mundo transita pelo Estreito de Ormuz, que tem 33 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito, mas onde a faixa de navegação tem ,menos de três quilômetros de largura em qualquer direção. Bloqueá-lo pode reduzir em 30% as exportações globais de petróleo.

Em termos de força militar convencional, o Irã é bem mais fraco do que os EUA, mas adotou estratégias assimétricas que podem infligir danos aos interesses americanos. A Guarda Revolucionária iraniana, leal ao aiatolá Ali Khamenei, tem um braço de operações especiais conhecido como Força Al-Quds, que fornece apoio a grupos aliados no Iraque, Líbano e Síria. O Irã ainda financia milícias como o Hezbollah, grupo que por si só é poderoso.

A Marinha do Irã também tem uma vantagem contra os EUA. Ela não precisa de grandes navios ou poder de fogo para bloquear o Estreito de Ormuz e pode utilizar minas ou submarinos para forçar uma suspensão do comércio na região. Jogos de guerra sugerem que ataques suicidas com lanchas e mísseis podem ser eficazes. E há também o programa de mísseis balísticos e o Hezbollah, que tem um arsenal de 130 mil foguetes.

O conflito também exigirá recursos humanos significativos que seriam usados, de outro modo, para conter China ou Rússia. O secretário de Defesa, Patrick Shanahan, elaborou planos para mobilizar 120 mil soldados na região, se o Irã atacar ou reiniciar seu programa nuclear. Na invasão do Iraque, foram mobilizados 150 mil soldados, juntamente com dezenas de nações aliadas. O custo da guerra do Iraque foi de US$ 2 trilhões e estima-se que 400 mil pessoas morreram. Portanto, a guerra é uma estratégia arriscada que preocupa até os aliados dos EUA. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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