Kevin Lamarque/ Reuters
Kevin Lamarque/ Reuters

Análise: Um elefante branco no Itamaraty

A normalidade só encontrará esteio quando a política de desmonte ambiental e as pirotecnias da diplomacia do atual governo derem lugar a uma abordagem minimamente crível

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2021 | 05h00

Enfim, a realidade se impôs e nada melhor do que ela para expor os gravíssimos equívocos de uma inominável “política exterior” que, no fundo, já estava fadada ao fracasso desde seu nascedouro. A diplomacia do governo Bolsonaro não agregou nada ao Brasil. Orgulhosamente, pária por opção, o Brasil colhe um retumbante isolamento e o amargo desdém de outrora parceiros estratégicos – EUA, China, Europa e Argentina (que agora, tardiamente, se busca algum diálogo, mas sem nenhum entusiasmo).

A carta do presidente Bolsonaro ao novo presidente da maior potência do mundo, Joe Biden, é uma inconfundível confissão de que o governo brasileiro errou muito e errou feio ao dimensionar as relações bilaterais sob uma arquitetura puramente ideológica. Em meio aos seus incontáveis afazeres, diferentemente do que ocorre no Palácio do Planalto entre passeios atléticos e aventuras em motocicletas, o inquilino da Casa Branca recebeu a missiva presidencial brasileira com a mesma deferência que o presidente brasileiro lhe reservou durante todo o processo eleitoral – ou até pouco antes de sua posse.

A carta seria apenas uma peça normal e protocolar, cujo conteúdo, supreendentemente sóbrio para os padrões deste governo, chegou tarde e não apaga as barbeiragens feitas até aqui. Esse tipo de missiva teria um efeito mais positivo fosse outro o contexto e o histórico recente de desfeitas e ataques, mas ainda assim não deixa de ser um gesto, ao insinuar que agora, finalmente, Bolsonaro estaria considerando um diálogo adulto e racional. A normalidade só encontrará esteio quando a política de desmonte ambiental e as pirotecnias da diplomacia do atual governo derem lugar a uma abordagem minimamente crível. Isto é: pôr fim ao desenfreado desmatamento e dar à política externa do país um tratamento estratégico.

Se o presidente Bolsonaro contradisser os sinais de sua própria carta, o novo presidente americano estará pressionado no plano interno a impor custos nada amigáveis ao governo brasileiro. Com a Câmara e agora o Senado e a Casa Branca nas mãos dos democratas, o Brasil não possui uma mísera cobertura política em Washington.

Para o Brasil reconstruir pontes confiáveis de diálogo com os EUA será preciso tangenciar três cruciais problemas. O chanceler Araújo dificilmente conseguirá estabelecer uma interlocução fluida com o Secretário de Estado americano, Tony Blinken – ou qualquer interlocução diriam os mais céticos. O ex-secretário de Estado John Kerry agora representante especial do presidente Biden para temas do Clima, não vê no ministro brasileiro do meio ambiente estatura para dialogar de forma crível e séria sobre a agenda ambiental e muito menos respeita um chanceler que apoiou indiretamente as “pessoas de bem” que invadiram o Capitólio. E o presidente Joe Biden não aceitará aproximação direta com o presidente Bolsonaro, por razões óbvias.

Um caminho possível e que pode ser efetivo nessa aproximação com a nova administração americana poderia ser via a vice-presidente Kamala Harris. A opção alternativa a Kamala seria por meio de John Kerry, o novo Czar do Meio Ambiente. Porém, em ambos os casos, o nível da interlocução precisa estar certos furos acima do nível ministerial do governo Bolsonaro.

O novo presidente americano sabe da relevância do Brasil e conhece bem os interesses estratégicos dos dois países – quando ainda era vice-presidente de Barack Obama, Biden foi incumbido do portfólio brasileiro. Mas não vai abandonar sua agenda nem “passar pano” nas grosserias e na interferência nos temas internos dos EUA promovidos pelo governo Bolsonaro. Cabe a este mostrar que está disposto e trilhar outro caminho. E, para isso, não bastam retórica vazia ou cartas burocráticas.

O primeiro passo do lado brasileiro seria apontar um novo interlocutor que seja respeitado por Washington e que seja capaz de reconstruir as pontes com a Casa Branca e com o campo democrata. Realisticamente, nem Bolsonaro, nem Araújo e nem Salles conseguirão destravar ou sedimentar em patamar razoável as relações em alto nível com os EUA (caso ambos não sejam substituídos). Pois, são cartas queimadas na gramática política washingtoniana.

Aqueles que poderiam ser os clássicos canais de ligação entre Brasília e Washington – se não fosse a inconsequente distopia ideológica – estão, por ora, tacitamente prejudicados. Portanto, a estratégia dessa reaproximação requer ato de grandeza e de resiliência por parte do presidente Bolsonaro, já que os caminhos levam a um único endereço – o vice-presidente da república. Resta saber, enfim, se o presidente brasileiro terá coragem e altivez para delegar esse desafio a quem tem estatura e respeito do lado de lá. Não se trata apenas de encontrar alguém com peso e projeção, mas dar-lhe as condições para trabalhar.

Fica a lição: não se organiza uma relação com uma superpotência apostando e torcendo publicamente por um dos candidatos na disputa. O que o Brasil colherá daqui em diante é uma gélida interlocução puxada a reboque do compasso da burocracia. Com muita sorte (se não for o desk Brasil) o Subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental é quem dialogará conosco via o embaixador brasileiro em Washington. O presidente brasileiro precisa decidir se tira ou se mantém o elefante branco que ele mesmo criou para o seu governo e para o país.


É Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018). Escreve semanalmente

 

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