REUTERS/Carlos Barria
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Análise: Um líder que admite ter saudades de não comandar os EUA

Durante toda a campanha presidencial, em 2016, para a maioria dos americanos, Trump não estava qualificado para o cargo

Philip Bump / W. POST , O Estado de S. Paulo

29 Abril 2017 | 05h00

Donald Trump passou grande parte do ano de 2016 insistindo que presidir o país seria fácil, pelo menos no seu caso. O jornal HuffPost compilou vários exemplos em que ele descartava os problemas ligados ao cargo que, afirmou, seriam facilmente resolvidos. Construir um muro na fronteira com o México era fácil. Derrotar Hillary Clinton seria simples. Renegociar o acordo com o Irã também era fácil, do mesmo modo que pagar a dívida do país. Agir como presidente? Fácil. 

Mas, esta semana, conversando com um jornalista da Reuters, Trump fez uma avaliação da presidência ligeiramente diferente. “Adoro a vida que tinha antes, quando muita coisa acontecia. Hoje, só tenho mais trabalho”, afirmou. “Achei que seria mais fácil. Sou uma pessoa concentrada nos detalhes. Na verdade, tenho saudade da minha vida de antes. Gosto de trabalhar, de modo que este não é o problema, mas, na verdade, este cargo exige muito mais trabalho.” 

Não é a primeira vez que Trump declara que a função é mais difícil do que previa. Em novembro, segundo a NBC News, ele teria dito ao ex-presidente da Câmara, Newt Gingrich, que “este é, de fato, um trabalho maior do que pensei”. 

Também há questões mais específicas. “Ninguém sabia que a reforma do sistema de saúde era tão complicada”, disse ele, em certa ocasião. Em outra, revelou que foi uma conversa com o presidente da China que o levou a entender que a situação na Península Coreana “não era tão simples”. 

Há um elemento que surpreende nesses comentários, e é esse ar de perplexidade diante da responsabilidade pelo bem-estar de 320 milhões pessoas entrelaçadas numa economia global, o que pode ser mais complicado do que gerir um patrimônio imobiliário e uma marca no centro de Manhattan. Mas quem não se surpreendeu com o despreparo de Trump? A maioria dos americanos. 

Durante toda a campanha presidencial, em 2016, para a maioria dos americanos, Trump não estava qualificado para o cargo.

Pesquisas realizadas pelo Washington Post e pela ABC News mostraram que opiniões nesse sentido dominaram toda a campanha. O único grupo que achava firmemente que ele estava apto para a função era o dos eleitores brancos da classe operária, que constituem sua base de apoio desde que ele se candidatou. 

Pesquisa da CBS News mostrou que Trump, cada vez mais, era considerado um político despreparado para a função. Em junho, julho e setembro – antes, durante e depois de ele lançar sua campanha –, para a maioria dos americanos, ele não estava pronto para ocupar a mais alta posição do país. Indagados pela CNN e sua parceira de pesquisas, a ORC, por uma ampla margem, muitos americanos disseram que Hillary Clinton era mais preparada do que Trump, incluindo democratas e independentes. E um número muito maior de republicanos considerava Hillary mais apta para o cargo do que o de democratas com relação a Trump. 

Enfim, para a maioria dos americanos, Trump não estava pronto para ser o presidente. Com base nos seus comentários de que o cargo é mais difícil do que pensava e exige mais trabalho, parece seguro dizer quer ele também chegou à conclusão de que não estava pronto para assumir a presidência. Pelo menos num ponto, porém, Trump continua convencido de que está à altura da tarefa. Durante uma entrevista para a Reuters, ele distribuiu cópias de um mapa que tinha em mãos. O mapa mostrava os EUA, coloridos com os resultados da eleição de 2016. “Muito bom, não é?”, disse Trump aos jornalistas. Derrotar Hillary Clinton, como se verificou, realmente foi mais fácil do que muita gente esperava. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É JORNALISTA

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