Chris Kleponis/Pool via EFE/EPA
Chris Kleponis/Pool via EFE/EPA

Análise: Um mandato que será marcado por seus dias finais

Último capítulo da presidência de Trump não é como ele poderia ter imaginado antes da invasão do Capitólio

Dan Balz*, The Washington Post

12 de janeiro de 2021 | 04h00

O último capítulo da presidência de Donald Trump pode ser sintetizado deste modo: em que circunstâncias ele deixará o cargo, e até que ponto a sua saída manchará ainda mais um legado já manchado.

O fim que está chegando não é como Trump poderia ter imaginado antes da invasão do Capitólio por seus apoiadores. Agora, está recebendo apelos de vozes conservadoras para que renuncie, entre elas a de Rupert Murdoch no Wall Street Journal.

Membros do seu gabinete e do staff da Casa Branca o abandonaram, embora talvez tarde demais para escapar das consequências do fato de terem permanecido ao seu lado por tanto tempo. O Twitter e o Facebook o baniram permanentemente em razão do risco de incitamento à violência, negando-lhe a plataforma favorita para mensagens incendiárias e ataques aos rivais. O mais sinistro é o fato de que ele enfrenta a perspectiva de um segundo processo de impeachment pela Câmara, liderada pela presidente democrata Nancy Pelosi, da Califórnia. Se isto acontecer, Trump se encontrará sozinho diante de tamanha desonra entre os presidentes da nação.

Se não renunciar ou sem a ação do vice-presidente liderando a decisão de invocar a vigésima quinta emenda, para a qual Pence aparentemente não se mostra disposto, o processo de impeachment poderá ser acelerado. Em poucos dias, a ideia de impeachment passou das conversações preliminares à perspectiva de uma possível ação da Câmara, no início da próxima semana, se Trump não tiver renunciado até lá.

O papel de Trump ao instigar a multidão que invadiu e profanou o Capitólio dos Estados Unidos, o símbolo mais visível da democracia americana, deixou ao presidente poucos defensores. Os últimos integrantes do exército nativista que lhe deram ajuda e conforto durante cinco anos, o acompanharão até o amargo fim. E há também os integrantes do Comitê Republicano Nacional que receberam e aplaudiram o presidente na Flórida na sexta-feira.

Há ainda alguns aliados no Congresso, embora um número menor do que nunca. Antes que o Capitólio fosse invadido, Trump havia sido abandonado pelo líder da maioria do Senado, Mitch McConnell, de Kentucky, que votou contra as objeções à contagem eleitoral, deixando clara a sua oposição em um duro discurso na Câmara.

O relacionamento do presidente com Pence se rompeu porque o vice-presidente fez a coisa constitucionalmente limitada – e correta – presidindo sem interferência a contagem dos votos do colégio eleitoral que tornou oficial a vitória do presidente-eleito Joe Biden. Trump aparentemente não consegue entender por que o vice-presidente se posicionou do lado da Constituição. A falta de um compromisso com a Constituição tem sido o persistente defeito da presidência de Trump. 

O Post e outros traçaram retratos vívidos ao longo de toda a semana de um presidente amargurado, trancado em seu bunker, cercado apenas por alguns assessores. Sob pressão, ele divulgou um vídeo na noite de quinta-feira pedindo que os ânimos “se acalmassem” e admitindo que no dia 20 de janeiro haverá um novo governo. Ele disse que agora o seu objetivo será assegurar uma transição “ordenada e sem problemas”. Não mencionou Biden e tampouco se congratulou com ele.

Na sexta-feira, antes da suspensão permanente pelo Twitter, ele tuitou que os quase 75 milhões de pessoas que votaram nele constituirão “uma voz gigantesca” no futuro e não deverão ser “desrespeitados” ou tratados de maneira injusta. Posteriormente, ele escreveu que não estaria presente na posse de Biden, o primeiro presidente em mais de um século a não participar da cerimônia que assinalaria sua admissão de que a eleição foi decidida de maneira justa.

Duas questões estão implícitas nas medidas que visam forçar a saída de Trump do cargo. Uma é a do perigo claro e presente, ou mais simplesmente, do eventual dano futuro que um presidente de caráter frágil poderá fazer nos últimos dias. 

Pelosi tomou a decisão extraordinária de revelar publicamente que havia conversado com o general Mark A. Milley, comandante do Estado Maior Conjunto, para discutir “as precauções possíveis a fim de impedir que um presidente instável inicie hostilidades militares ou acesse os códigos de lançamento para ordenar um ataque nuclear”. 

Os temores expressos por Nancy Pelosi foram formulados em uma linguagem direta, alarmante, mas não é a primeira vez que a questão do que Trump poderá fazer com seus poderes de comandante em chefe foi levantada, nos últimos dias, por aqueles que serviram no governo. Os dez ex-secretários da defesa vivos já aconselharam o Pentágono a não envolver os militares em nenhuma disputa eleitoral e destacaram as severas consequências para os líderes se permitissem que isto acontecesse.

Para alguns, a maneira mais fácil para aliviar as preocupações a respeito do que Trump poderia fazer em seus últimos dias seria uma rápida renúncia ao cargo e a elevação de Pence à presidência até a posse de Biden. Os que estão a favor da renúncia consideram o impeachment um processo demorado, causador de maiores divisões. Por outro lado, eles veem o emprego da vigésima quinta Emenda, pela qual Pence e uma maioria do Gabinete declarariam Trump incapaz de cumprir os seus deveres, uma conclusão muito mais difícil para a sua presidência. 

A outra questão que conduz a discussão sobre o impeachment é a responsabilidade pela violência contra o Capitólio.

A linguagem do documento do impeachment preparado pela Câmara dos Deputados torna este papel a base da acusação contra o presidente.

Impeachment e condenação, se o Senado tomar este curso da ação, produziriam algo mais: negariam a Trump a oportunidade de concorrer à presidência uma segunda vez. Trump encerrou o seu vídeo na quinta-feira dizendo aos seus apoiadores: “A nossa incrível jornada está apenas começando”. Ele está ponderando a possibilidade de outra campanha à presidência em 2024, a ser lançada talvez ao deixar o cargo.

Até o ataque de quarta-feira ao Capitólio, ele era considerado capaz de continuar o seu papel de mais destacado e poderoso líder do Partido Republicano, e apto a congelar o campo dos aspirantes à presidência do partido de 2014 para uma possível candidatura própria ou determinando uma indicação.

A diminuição da sua posição reduziria a probabilidade de que o partido recorresse a ele como seu indicado à presidência, embora ele tenha sido excluído anteriormente e continue desfrutando do apoio entre as bases e entre alguns altos funcionários do partido. O impeachment tiraria da mesa esta questão em caráter permanente.

Na sexta-feira, perguntaram a Biden a respeito do impeachment, mas ele tentou desviar. Ele afirmou que qualquer decisão neste sentido deve ser deixada aos legisladores do Congresso e que ele continuará focado nos preparativos para tornar-se presidente. Não foi nem uma rejeição nem um apoio, apenas reiterou que há muito considera Trump inadequado para a presidência. E acrescentou que acredita que a maneira mais rápida de tirar Trump do cargo é deixar a Constituição funcionar e esperar o fim do mandato de Trump ao meio-dia de 20 de janeiro. 

Um possível processo de impeachment amarraria o Senado antes mesmo que Biden começasse a sua presidência. Isso adiaria as prioridades de Biden, como a confirmação dos membros do gabinete e sua ação na questão do pacote de ajuda de um trilhão de dólares contra a covid, que, segundo afirmou, será a sua principal prioridade legislativa. Não são estas exatamente as circunstâncias, mas isto não chega a surpreender, dada a história de Trump no cargo.

O líder da minoria no Senado, Kevin McCarthy, da Califórnia, disse na sexta-feira que o impeachment só dividiria ainda mais a nação em um momento em que, afirmou, é necessário sanar as feridas. Os democratas consideram vãs estas palavras, vindas de alguém que ajudou a dar apoio às falsidades do presidente a respeito das eleições roubadas, e que votou a favor das objeções à contagem no Arizona e Pensilvânia depois que os apoiadores de Trump saquearam o Capitólio.

McCarthy não é o único republicano que agora tenta desavergonhadamente galgar degraus mais altos. Haverá consequências para afastar o presidente e consequências para não afastar. O tempo é escasso e a responsabilidade do presidente pelo que aconteceu na quarta passada é inegável. Seja como ou quando deixar a Casa Branca, Trump estará para sempre marcado pelos seus últimos dias no cargo. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É JORNALISTA 

 

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