REUTERS/Andrew Kelly
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Análise: O nacionalismo não pode nos salvar

Diante de desafios impostos pela pandemia, não é o nacionalismo que pode nos salvar de seus efeitos, mas a cooperação internacional por meio do fortalecimento do multilateralismo

Hussein Kalout* , O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2020 | 10h00

O mundo não será mais o mesmo depois da pandemia do covid-19. Trata-se de um abalo sísmico de grandes proporções na ordem internacional construída pós-Segunda Guerra Mundial. O seu impacto não é menor do que uma guerra em perdas de vidas humanas, desestruturação de tecidos produtivos e na redistribuição mundial de poder. Embora a primeira reação dos diversos países é ter reafirmado as prerrogativas dos governos nacionais - fechando fronteiras, centralizando compras de insumos médicos, baixando pacotes econômicos -, o efeito de longo prazo da pandemia, se formos capazes de tirar as lições corretas, deveria ser o reforço da cooperação multilateral.

Antes da pandemia, já havia uma clara crise estrutural na ordem internacional dita liberal do pós-Guerra. Os EUA, os antigos garantidores dessa ordem, mostravam insatisfação crescente com suas regras, uma vez que, de sua perspectiva, potências malignas puderam vicejar nesse contexto.

A China teria se valido de sua participação na OMC para auferir vantagens indevidas, angariando os benefícios do sistema multilateral de comércio sem arcar com os ônus. Resultado teria sido a exportação líquida de empregos dos EUA para a China e outros países asiáticos. A Rússia, por sua vez, teria aproveitado as brechas do sistema de segurança coletiva da ONU, onde possui poder de veto, e as fragilidades da Otan para mostrar as garras na Geórgia, na Síria e, sobretudo, na Ucrânia.

O unilateralismo e uma visão “transacional” das relações exteriores passaram a dominar a política externa dos EUA sob Trump, que não hesitou em minar regimes internacionais - como o Acordo de Paris, o pacto migratório da ONU e o mecanismo de solução de controvérsias da OMC - para forçar mudanças das regras a seu favor. Essa mesma lógica levou à guerra comercial com a China, à imposição de sobretaxas ao aço e ao alumínio sob alegação de segurança nacional, à renegociação forçada do Nafta e à retirada do TPP, além das críticas à atuação e ao financiamento da Otan.

Apesar da reação inicial à pandemia aparentar vitória do nacionalismo egoísta sobre a cooperação multilateral, não há dúvida de que ameaças como essa não encontrarão respostas sustentáveis no ambiente do cada um por si ou do toma-lá-dá-cá que caracteriza a política de Trump. O enfrentamento da pandemia e a reconstrução posterior demandarão investimentos públicos maciços não apenas dos governos nacionais, mas também das instâncias multilaterais.

Se a OMS contasse com um sistema de alerta precoce mais robusto em matéria de notificação de pandemias, com sanções claras, talvez a demora da China em alertar sobre os primeiros casos tivesse sido menor, com ganhos para a prevenção e preparação em todo o mundo. Além disso, sistemas nacionais de saúde frágeis têm implicações além-fronteiras. Para mobilizar recursos, conhecimentos especializados e boas práticas, será fundamental envolver organismos internacionais como a ONU, a OMS, o Banco Mundial, o FMI, a FAO e a OMC, entre outros, com vistas a fortalecer as estruturas nacionais.

A pandemia do covid-19 é particularmente dramática porque concentra no tempo os seus efeitos, mas não é distinta, em sua natureza, de temas como mudança do clima, migrações, crimes transnacionais, terrorismo, segurança alimentar, e diversos tipos de conflitos e tensões regionais e globais. Diante desses desafios, não é o nacionalismo que pode nos salvar, mas a cooperação internacional por meio do fortalecimento do multilateralismo. No lugar da anarquia internacional do salve-se-quem-puder, apenas a ordem regida por regras compartilhadas será capaz de garantir soluções de longo prazo.

Uma grande ameaça gera sempre o reflexo inicial de proteger os interesses nacionais por meio de ações individuais dos países. Esse nacionalismo epidérmico, contudo, terá de ceder lugar, no andar da carruagem, a uma visão mais sofisticada do interesse nacional, que, no longo prazo, estará melhor protegido por regras multilaterais e pela cooperação internacional. Não podemos repetir o erro dos anos 1930, em que a cegueira ultranacionalista dos entusiastas de políticas transacionais da época gerou apenas mais insegurança, desesperança e conflito.

*HUSSEIN KALOUT, 43, é cientista político, professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018) e atuou como consultor das Nações Unidas e do Banco Mundial. Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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