Aaref WATAD / AFP
Aaref WATAD / AFP

Análise: Um novo erro estratégico dos Estados Unidos na Síria

Trump parece estar descartando toda a sua estratégia na Síria e no Irã de uma vez só, desistindo de toda e qualquer influência dos EUA na região - e desconsiderando o conselho de seus principais funcionários de segurança nacional.

Josh Rogin, Washington Post, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2018 | 05h00

Na segunda-feira, o representante especial dos EUA para o engajamento na Síria prometeu publicamente que o compromisso dos EUA com a Síria não seria suspenso. Pois no dia seguinte, o presidente Donald Trump teria decidido rapidamente retirar todas os soldados dos EUA da Síria. Trump parece estar descartando toda a sua estratégia na Síria e no Irã de uma vez só, desistindo de toda e qualquer influência dos EUA na região - e desconsiderando o conselho de seus principais funcionários de segurança nacional.

Se seguir adiante, a decisão de Trump terá consequências devastadoras e perigosas para os Estados Unidos, para a região e para o povo sírio. Trump pareceu confirmar no Twitter na quarta-feira que havia instruído o Pentágono a planejar a retirada rápida de cerca de 2.000 forças dos EUA do nordeste da Síria, que foi recentemente libertado do governo do Estado Islâmico.

"Nós derrotamos o ISIS na Síria, minha única razão para estar lá durante a Presidência Trump", ele tuitou. Um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional não respondeu aos pedidos de esclarecimento. Como na maioria das decisões políticas de Trump, há muita confusão e comunicações contraditórias, e os detalhes ainda não estão claros. Mas não há dúvida de que até segunda-feira, James Jeffrey, representante especial dos EUA para o engajamento na Síria, estava anunciando uma estratégia diametralmente oposta.

Em uma apresentação no Atlantic Council em Washington, Jeffrey disse que os Estados Unidos permanecerão na Síria até que três metas sejam atingidas: garantir a derrota final do Estado Islâmico, reverter a influência iraniana e alcançar uma solução política para a crise.

“A estratégia é usar essas várias alavancas, a alavanca de todas essas forças militares correndo de lá para cá ... o fato de que grande parte do território e muitos dos recursos mais valiosos, tais como petróleo e gás, não estão nas mãos do regime,” para evitar que o regime de Assad, Rússia e Irã alcancem a vitória total em seus próprios termos”, disse Jeffrey.

Jeffrey disse que o processo político liderado pela ONU estava “muito próximo de um avanço em potencial ou de um colapso nesta semana”. Ele zombou da ideia de que tudo que o presidente sírio, Bashar al-Assad, tem que fazer é esperar que os Estados Unidos levantem as mãos e voltem para casa. “Acho que se essa é a estratégia dele, ele vai ter que esperar muito tempo”, disse Jeffrey, chamando o compromisso militar e financeiro americano na Síria como “algo que certamente é sustentável para nós”.

Retirada de tropas da Síria surpeende

Jeffrey não parecia ciente de que Trump estava prestes a anunciar uma reversão completa da decisão tomada em setembro para manter as tropas norte-americanas na Síria até que as três metas estabelecidas fossem alcançadas. "A nova política é que não vamos mais nos retirar até o final do ano”, disse Jeffrey na época. “Isso significa que não estamos com pressa ... estou confiante de que o presidente de acordo com isso.”

Aparentemente não. Trump está agora contradizendo o que todos os seus outros altos funcionários de segurança nacional têm dito ao mundo há meses.

O secretário de Defesa, Jim Mattis, disse em agosto que as tropas dos EUA permanecerão até que haja progresso no caminho político. O conselheiro de segurança nacional, John Bolton, disse em setembro: “Não vamos sair enquanto as tropas iranianas estiverem fora das fronteiras iranianas e isso inclui agentes e milícias iranianas”.

O secretário de Estado, Mike Pompeo, disse em um discurso em outubro que a meta de derrotar o Estado Islâmico “agora se soma a dois outros objetivos que se reforçam mutuamente”: uma resolução pacífica para o conflito e “a retirada de todas as forças iranianas e apoiadas pelo Irã da Síria”.

O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Joseph Dunford Jr., disse no início deste mês que os militares americanos ainda tinham “um longo caminho a percorrer” em sua missão de treinar forças locais na Síria para manter o Estado Islâmico à distância.

O deputado Adam Kinzinger, republicano do Illinois, me disse na manhã de quarta-feira que o momento da mudança não poderia ser mais contraproducente. Não há nenhuma boa razão para os Estados Unidos anunciarem que estão desistindo de toda alavancagem assim que a próxima rodada de negociações começar.

“A história vai encarar isso como um dos movimentos estratégicos mais estúpidos antes de uma negociação", disse ele. “Para obter um resultado diplomático bem-sucedido, você precisa ter uma opção militar e uma presença militar”.

O pior, disse ele, é que Trump está repetindo o mesmo erro que o presidente Barack Obama fez no Iraque - retirando-se e deixando um vácuo que o Estado Islâmico e outros extremistas certamente preencherão.

Também não há clareza sobre se isso também significa que os Estados Unidos abandonarão sua base militar em Tanf, onde algumas centenas de soldados dos EUA estão trabalhando com forças locais sunitas árabes para manter uma localização estratégica perto da fronteira entre Síria e Iraque. Bolton, pessoalmente, pressionou Trump a não se retirar de Tanf este ano.

Trump está abandonando todos parceiros com os quais os Estados Unidos vêm lutando ao longo dos anos. Também foram gastos bilhões de dólares para fortalece-los e dar-lhes apoio. As Forças Democráticas Sírias, em sua maioria curdas, que controlam Raqqa, não terão escolha a não ser fazer um acordo com o regime, devolvendo ao controle de Assad o nordeste rico em recursos da Síria. Forças árabes locais que trabalham com os Estados Unidos também serão forçadas a mudar de lado para sobreviver.

"É um triste estado de coisas quando nossos principais aliados, que derramaram sangue e milhares de vidas para nossa luta contra o Estado Islâmico, estão verdadeiramente abandonados”, disse Charles Lister, membro sênior do Instituto do Oriente Médio.

Lister disse que Trump poderia ter feito algum acordo com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, sobre o apoio dos EUA às forças curdas durante a sua ligação telefônica na última sexta-feira.

A teoria da administração Trump (até agora) era que o regime de Assad, a Rússia e o Irã precisariam dos Estados Unidos e da comunidade internacional para ajudar na reconstrução da Síria, para ajudar os refugiados a retornarem, dando ao Ocidente alguma influência.

Mais provavelmente, Assad e seus parceiros não desejam o retorno de milhões de sírios furiosos e nem querem restaurar economicamente as áreas do país que lutaram contra ele. Seu domínio sobre as partes agora liberadas da Síria será cruel e mortal, causando mais refugiados, mais extremismo e mais ameaças aos aliados regionais dos EUA.

A política americana na Síria tem sido falha desde o início, uma mistura de engajamento desanimado, diplomacia ambiciosa e promessas não cumpridas. Mas a retirada dos EUA que Trump está propondo o colocará na triste distinção de adotar uma má política e transformá-la em um erro estratégico que voltará para nos assombrar. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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