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Análise: Um presidente imprevisível para uma política incerta 

Quando era candidato, Trump dizia que imprevisibilidade era uma qualidade fundamental para abordar problemas e negociações

Dan Balz / W. POST*, O Estado de S.Paulo

25 Maio 2018 | 05h00

O cancelamento da cúpula entre Donald Trump e Kim Jong-un levanta uma questão óbvia: com este presidente, pode haver alguma certeza sobre o que quer que seja? Isso não quer dizer que Trump tenha errado ao cancelar a reunião do dia 12. A Coreia do Norte também tem culpa pela mudança nos planos. A retórica provocadora contribuiu para que houvesse dúvidas quanto à disposição de Kim em discutir de boa-fé a proposta de se livrar de suas armas nucleares. Talvez o clima estivesse ruim o suficiente para que o cancelamento fosse o caminho mais lógico.

Mas o episódio diz muito sobre o estilo de liderança incerto do presidente, que recentemente voltou atrás na guerra comercial com a China depois de ameaças e declarações sobre como seria fácil vencê-la. Quando era candidato, Trump dizia que imprevisibilidade era uma qualidade fundamental para abordar problemas e negociações. Ela poderia ser uma vantagem se levasse a um progresso genuíno e a resultados construtivos. Mas a imprevisibilidade pela imprevisibilidade não leva a nenhum lugar. E, até agora, sua inconstância rendeu pouca coisa. 

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Parece que Trump acreditou mesmo que Kim abandonaria seu arsenal nuclear em troca não se sabe de quê. O presidente prometeu investimentos e riqueza, embora a sobrevivência seja a prioridade do regime. Será que Trump ficou surpreso com a reviravolta? O papel de sua nova equipe de política externa no cancelamento ainda é obscuro. Há muito tempo, o conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, deixara claro sua hostilidade com relação à Coreia do Norte. O secretário de Estado, Mike Pompeo, é o único no governo que se reuniu com o líder norte-coreano. O que ele e Bolton conversaram sobre a cúpula?

Não é a primeira vez que Trump fala de forma extravagante sobre seu desejo de resolver um problema, apenas para demonstrar mais tarde que ele pode mudar de ideia a qualquer momento. Seu estilo é manter tudo em aberto. “A cúpula vai ocorrer”, repetiu o presidente durante todo o mês. Ontem, ele adotou posição oposta. “A cúpula está cancelada”, disse. “Mas talvez ela possa ser agendada mais tarde.” Isso se parece muito com a diplomacia tradicional, que ele sempre criticou. Trump, porém, ainda tenta provar que se trata de uma abordagem alternativa, que será mais bem-sucedida. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É JORNALISTA

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