REUTERS/Carlos Barria
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Análise: Um presidente sem inconvenientes para se contradizer

Toda iniciativa política é hoje só confeitaria, frágeis enfeites de açúcar desses que coroam sobremesas vistosas e se esfarelam ao primeiro contato

David Brooks / NYT , O Estado de S. Paulo

29 Abril 2017 | 05h00

É preciso lhe dar crédito – Donald Trump é bem mais adaptável que muitos de seus críticos pensavam. Muitos reagiram à chocante vitória eleitoral com a visão, à época, justificável, de que Trump era uma ameaça ao país. Era um nacionalista étnico populista empenhado em arrastar os EUA para um destino horroroso. Um criptofascista obcecado em solapar cada regra e instituição de nossa democracia. Muitos de nós, críticos de Trump, elevamos nosso ultraje para o grau 11. Como a ameaça era virulenta, a resposta tinha de ser virulenta.

O lado bom era que podíamos abusar desta raríssima circunstância política: uma competição entre o certo e o errado. Tudo parecia girar em torno de duras polarizações: pluralismo versus intolerância, democracia versus fascismo, amor versus ódio. A ameaça totalitária de Trump nos permitia ficar comodamente do lado da retidão pura.

O problema é que Trump mudou, e muitos de seus críticos não admitem. Ele não ficou mais inteligente ou humilde, mas ficou mais contido e convencional. Muitos ainda reagem contra com grau de ultraje 11, mas a ameaça de Trump hoje é de grau 3 ou 4. Nestes dias, grande parte da crítica parece exagerada demais, o que diminui sua credibilidade. O “movimento de resistência” ainda reage como se um fascismo atávico estivesse batendo à porta, quando o perigo real é a incapacidade diária. Esses críticos espumam de raiva a cada sopro de escândalo, de um modo que só provoca ceticismo.

Se você está perdendo a serenidade em razão de Trump, então está mesmo com problemas. A ameaça se tornou menor, por três motivos. Primeiro, é cada vez mais claro que tudo que se refere a Trump tem menos conteúdo do que parece. Ele será o último presidente que cresceu inteiramente na era da TV – depois da imprensa, mas antes da internet. No arcabouço mental de Trump, tudo funciona em segmentos e capítulos. Avaliações são o último critério de valor.

Isso significa que ele é um mestre do factoide, que atrai cobertura de TV e desaparece em seguida. Significa que tudo pode mudar num instante. Nada é tão profundo ou complicado a ponto de merecer mais de três minutos de noticiário. Toda iniciativa política é hoje só confeitaria, frágeis enfeites de açúcar desses que coroam sobremesas vistosas e se esfarelam ao primeiro contato. A reforma fiscal de Trump vem sendo tratado como um plano de verdade, mas é só uma escultura de açúcar – um amontoado de palavras que não se detém em nada sério e não tem chance de aprovação na atual forma.

Segundo, o nível de competência de Trump subiu de catastrófico para meramente insuficiente. Nas primeiras semanas de governo, ele dava um tiro no pé a cada hora. Mas, com o tempo, cercou-se de gente melhor e deu poder na Casa Branca àqueles que tentam criar um processo normal de tomada de decisão. Sua política exterior tem sido normal. Seu governo comprometeu-se com a Otan, deixou de hostilizar a China, confirmou o compromisso do Irã com suas obrigações nucleares e exerceu alguma pressão sobre a Coreia do Norte.

Terceiro, Trump se distanciou do único movimento verdadeiramente revolucionário de nossa época. Meses atrás, parecia inclinado a desfazer a ordem mundial, mas não hoje. Certo, ele vai mandar um tuíte apoiando Marine Le Pen, mas deixou de ser um populista subversivo para se tornar um corporativista convencional. Seu modelo administrativo agora é ser pró-negócios – diminuindo regulamentações, aderindo ao Export-Import Bank e propondo-se a diminuir impostos sobre o lucro.

Parte da agenda econômica de Trump é muito boa – impostos sobre o lucro são de fato muito altos. Parte é muito ruim – como ameaçar deixar os acordos de Paris sobre aquecimento global. Mas nada é inusitado. Assemelha-se a qualquer governo republicano integrado por pessoas cujos preconceitos foram formados em 1984 e não tiveram, desde então, nenhum pensamento novo.

Longe de ser um brigador, Trump tende a recuar quando seus planos encontram resistência, como durante o espetáculo do orçamento desta semana. Nunca será profundo, mas o estilo de sua superficialidade parece destinado a mudar nos próximos anos. Não me entendam mal. Gostaria que tivéssemos um presidente com convicções e conhecimento verdadeiros, interessado em fazer mesmo o bem para os americanos. Mas é difícil manter-se ultrajado por um homem que é politicamente um desses bichinhos que andam sobre a água – uma dessas minúsculas criaturas fascinantes de se observar, mas que, quando se vão, não deixam lembrança. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É COLUNISTA

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