EFE/MIRAFLORES
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Análise: uma falsa Guerra Fria entre Moscou e Washington pela crise na Venezuela

Especialistas acreditam que divisão do apoio entre Putin e Trump lembra a disputa ideológica do século 20, mas diferenças estão nos interesses econômicos desses países

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2019 | 14h00

PARIS - A crise política na Venezuela fez soprar um ar de Guerra Fria, com dois blocos opostos, um liderado por Washington, outro por Moscou. Mas esse enfrentamento diplomático nada tem a ver com aquele que sacudiu o mundo no século 20, segundo especialistas.

Desde que o chefe do Parlamento venezuelano Juan Guaidó se autoproclamou presidente interino da Venezuela enfrentado a autoridade de Nicolás Maduro, Estados Unidos e Rússia se opõem diretamente e cada um elegeu seu campeão: Washington ficou com Guaidó e Moscou, com Maduro.

E os dois países receberam apoio de seus aliados tradicionais: Europa e Canadá com Donald Trump, China com Vladimir Putin. Tudo isso faz pensar no surgimento de uma nova Guerra Fria, mas especialistas descartam essa possibilidade. “Há um ar de Guerra Fria”, admite Thomas Posado, doutor em Ciências Políticas da Universidade de Paris VIII, mas “é muito menos ideológica”. “A especificidade dessa crise venezuelana é que há interesses econômicos muito atuais, vinculados ao reembolso da dívida venezuelana, do qual ambos os países são credores."

“Não é uma Guerra Fria, não há uma política anticomunista americana como nos velhos tempos porque o comunismo já não existe”, diz o especialista britânico Richard Lapper, do think-thank Chatham House.

Para Isabelle Facon, da Fundação para Investigação Estratégica (FRS), não se pode considerar que China e Rússia “formem um bloco”. Segundo ela, a posição de Moscou e Pequim se explica pela oposição ferrenha ao intervencionismo americano. “Desde meados dos anos 1990, Moscou e Pequim defendem os princípios da Carta das Nações Unidas, a não interferência, o respeito à soberania dos Estados-membros, pelo que se unem na denúncia do que consideram como uma propensão dos Estados Unidos e dos europeus para intervir para mudar regimes”, explica, destacando que o fazem pelo próprio interesse.

Para Lapper, a situação atual deixa em evidência a “política cada vez mais agressiva da China na região”. “Como no resto do mundo, querem dominar na América Latina”, um território em que os EUA “perderam terreno”, acrescentou.

Quanto aos americanos, a diplomacia de Donald Trump, inclusive com seus aliados tradicionais, desqualifica qualquer ideia de um bloco homogêneo.

O especialista Thomas Posado vê nessa crise atual “uma reativação” da doutrina Monroe, a política externa adotada pelos EUA a respeito dos países latino-americanos no século 20. Prova disso, diz, é a designação de parte da administração Trump do diplomata Elliot Abrams ao cargo de emissário especial encarregado de “restaurar a democracia” na Venezuela. Abrams participou durante os anos 1980 das campanhas anticomunistas na América Central.

Mas além do aspecto geopolítico, o componente econômico também é importante, destacam os especialistas. “As empresas russas fizeram grandes intervenções na região. A China tem interesses na América Latina pelos seus recursos naturais e investiram muito na Venezuela”, explica Lapper. É também o caso dos EUA, que têm grandes interesses em Caracas.

Para Posado, Moscou e Pequim “seguirão apoiando Maduro” porque “caso seja instalado um governo próximo aos EUA, é provável que uma parte das dívidas contraídas por Maduro nos últimos tempos sejam questionadas e renegociadas.” / AFP

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