Jonathan Ernst/Reuters
Jonathan Ernst/Reuters

ANÁLISE: Uma guinada na política externa americana

Numa das muitas ironias da era Trump, a saída de Rex Tillerson e sua substituição pelo diretor da Cia, Mike Pompeo, pode trazer ainda mais más notícias

Hal Brands / BLOOMBERG, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2018 | 05h00

O principal legado de  Rex Tillerson em seus 14 meses de serviço é um Departamento de Estado desmoralizado e esvaziado. Mas, numa das muitas ironias da era  Donald Trump, a saída de Rex Tillerson – e sua substituição pelo diretor da CIA,  Mike Pompeo – pode trazer ainda mais más notícias. A demissão de Tillerson devolverá ao Departamento de Estado um papel mais destacado na política americana. Mas pode também indicar que Trump está progressivamente se libertando das amarras que o impedem de causar danos ainda maiores. 

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A política exterior de Trump não tem sido particularmente boa, mas pelo menos está sendo muito menos radical que o que se poderia esperar de sua retórica de campanha. Como candidato, Trump com frequência dava a impressão de que pretendia romper alianças, trocar o livre comércio por um protecionismo total e reverter fundamentalmente a tradição de política externa que herdara. A maioria dessas ameaças não se concretizou.

Trump retirou os EUA da Parceria Transpacífico e anunciou a intenção de fazer o mesmo em relação aos acordos climáticos de Paris. Abalou alianças e parcerias com seu comportamento incompetente e grosseiro. Ameaçou romper acordos comerciais, do Nafta ao acordo bilateral EUA/Coreia do Sul. Mas essas ações causaram geralmente mais danos simbólicos que substantivos.

Trump, por exemplo, não se retirou do Nafta, apesar de seu claro desejo de fazer isso, e não reinstituiu a tortura, embora tenha elogiado continuamente a eficácia dessa prática. Ele até manteve (até agora) o acordo com o Irã, que denunciou repetidamente na campanha. E em várias outras políticas – em relação ao Afeganistão ao Estado Islâmico, por exemplo – não se distanciou muito do que qualquer outra administração republicana teria feito. 

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Há várias razões para isso, mas a principal é o fato de Trump ter sido contido por seus assessores mais importantes. No verão de 2017, a oposição unificada dos principais assessores de segurança nacional de Trump o impediu de se retirar simplesmente do acordo nuclear com o Irã, levando-o em lugar disso a buscar a renegociação. 

Agora, o presidente parece ter outras ideias. O governo simplesmente empurrou para a frente temas como o Irã e o Nafta, o que significa que Trump em breve terá de se decidir entre aumentar a carga ou recuar. E o presidente será mais pressionado a cumprir algumas promessas de campanha à medida que se aproximam as eleições de meio de mandato de 2018. 

Estão em pauta as tarifas sobre a importação de aço e alumínio que foram formalmente impostas na semana passada. Os assessores presidenciais lutaram contra essas tarifas, mas Trump ignorou.

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Há também possibilidades positivas com a saída de Tillerson. Se ter um secretário de Estado confiável e com poderes junto ao presidente é importante para o sucesso da diplomacia americana, então o “Rexit” pode ser sido um passo na direção certa.

Se os esforços de Tillerson para reorganizar o Departamento de Estado foram mal concebidos e contraproducentes, sua saída também é oportuna. Tendo chefiado a CIA, Pompeo seguramente entende a ameaça representada pela intervenção da Rússia na eleição americana e em outras. Com Trump, a questão fundamental é sempre saber se o presidente ou seus assessores mais responsáveis determinam a direção do país. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É PROFESSOR NO CENTRO HENRY A. KISSINGER PARA ASSUNTOS GLOBAIS DA UNIVERSIDADE JOHNS HOPKINS DE ESTUDOS AVANÇADOS 

 

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