Rolando Enriquez/EFE
Rolando Enriquez/EFE

ANÁLISE: Uma nova derrota do populismo na América Latina

Derrota de Correa é mais uma na recente onda de insucessos eleitorais de líderes populistas de esquerda na América do Sul, incluindo derrotas nestes últimos três anos na Argentina, Bolívia e Venezuela

Simenon Tegel, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2018 | 05h30

LIMA, Peru – Quando Rafael Correa, o combativo presidente socialista do Equador, decidiu não disputar a eleição presidencial em 2017, sua decisão foi interpretada como uma retirada estratégica.

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A estratégia, segundo analistas, era deixar que o seu protegido, Lenin Moreno, assumisse o posto por um único mandato e fosse responsabilizado pelo colapso da economia do país; nesse intervalo os índices de aprovação de Correa seriam recuperados, propiciando seu retorno triunfante na eleição de 2021.

Se esse era o plano, fracassou rotundamente. Os equatorianos votaram maciçamente no domingo, aprovando mudanças constitucionais que impedem Correa de se candidatar novamente, e enterraram partes significantes do seu legado.

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De acordo com resultados preliminares, com 89% dos votos contados, 64,3% dos eleitores aprovaram proposta de limitar as autoridades públicas a uma única reeleição, o que impede Correa de se candidatar novamente.

O resultado do referendo marca o fim de uma era no Equador em que o político de 54 anos foi figura destacada e polarizadora. E é também a mais recente de uma onda de insucessos eleitorais de líderes populistas de esquerda na América do Sul, incluindo derrotas nestes últimos três anos na Argentina, Bolívia e Venezuela.

Correa presidiu o país de 2007 a 2017, trazendo um pouco da tão necessária estabilidade política para a pequena nação andina e aprovando reformas muito importantes na área da educação e do serviço de polícia. Ele também sobreviveu a uma suposta tentativa de golpe, quando, numa emissão de TV ao vivo, abriu sua camisa e desafiou os policiais amotinados a atirarem contra ele.

Mas os críticos de Correa o acusam de autoritarismo, e mesmo de adoção de medidas repressivas contra a mídia que a organização Human Rights Watch qualificou de “orwellianas”. E também autorizou o fundador do WikiLeaks Julian Assange a se refugiar na embaixada equatoriana em Londres.

Apesar de ser o vice de Correa durante seis anos, Moreno é muito diferente. Ele é autor de uma dezena de livros em que defende o humor para promover o bem-estar e é conhecido por ser um bom ouvinte. É reputado como um político conciliador que elogia o papel de uma imprensa livre, em particular para erradicar políticos corruptos.

Moreno também foi quem lançou o referendo de domingo. Correa, que o chamou de “traidor” e “impostor”, fez uma intensa campanha contra a medida, mas parece ter perdido sua mágica. Seus índices de aprovação, outrora altíssimos, hoje giram em torno de 30% e na semana passada manifestantes cobriram seu carro de lixo.

Em um discurso pela TV quando o resultado do referendo ficou claro, Moreno falou da necessidade de uma união nacional, observando que “o confronto ficou para trás”.

O referendo incluiu também propostas para revogar duas medidas adotadas por Correa que enfureceram o poderoso movimento indígena do Equador. A primeira, uma revogação de medida do governo que autorizava a mineração em áreas urbanas e protegidas, foi aprovada por 68.9% dos eleitores. A outra, redução das áreas de perfuração de petróleo no Parque Nacional Yasuní, cuja biodiversidade é surpreendente e abriga uma das últimas tribos indígenas vivendo isolada na região amazônica, foi aprovada por 67,6%.

Segundo Paulina Recalde, que dirige a empresa de pesquisas Perfiles de Opinión, em Quito, a marca de populismo de Correa, baseada na luta de classes, ficou obsoleta.

“Não é apenas o estilo de Correa. Também é a substância”. Você pode criticar a classe política tradicional para ser eleito, ou quando chega ao poder. “Mas quando governa por uma década essa retórica não soa mais verdadeira”.

Embora Correa seja o mais recente populista de esquerda no continente a perder nas urnas, Dawisson Belem Lopes, professor de política internacional na Universidade Federal de Minas Gerais, afirma que os latino-americanos não estão tendendo para a direita. Pelo contrário, estão se rebelando contra líderes que consideram autocráticos, venais e incompetentes.

“Este tipo de político messiânico já não tem mais sucesso na região. Os eleitores querem servidores públicos mais responsáveis e uma melhor administração”.

Entretanto ele alertou para o risco de “contágio” dos Estados Unidos. “Não se trata mais apenas do histórico ditador latino-americano ou de um Rodrigo Duterte (presidente das Filipinas) agora. “Hoje, Trump também é um modelo a seguir”. / Tradução de Terezinha Martino.

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