Mario Tama/Getty Images/AFP
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Análise: Uma surpresa na Colômbia

Resultado do plebiscito mostra uma profunda insatisfação por parte do povo colombiano diante dos acordos negociados em Havana, como o excesso de impunidade aos guerrilheiros e o medo de o país se tornar uma economia socialista

Carlos Malamud / Infolatam, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2016 | 10h13

MADRI - O resultado tão apertado do plebiscito pela paz na Colômbia trouxe uma grande surpresa. Enquanto as pesquisas indicavam ampla vitória do “sim”, a realidade foi diferente. Por diferença de poucos milhares de votos, o “não" saiu vencedor. Depois de apurados 99,47% dos votos, a diferença foi de 62.000 cédulas, ou cerca de 0,5%, o que indica um duro tropeço para o governo de Juan Manuel Santos, apesar do apoio unânime declarado pela comunidade internacional.

A participação foi muito baixa, inferior a 38%. Nas regiões litorâneas a forte chuva da manhã limitou a votação. Mas as pesquisas de opinião, o excessivo triunfalismo da campanha do “sim" e certa soberba de algumas propostas provocaram um grau de desmobilização em parte do eleitorado. Em Bogotá, por exemplo, embora tenha ganhado o “sim”, a vitória foi muito apertada, e os votos recebidos pelo “não" (mais de um milhão) explicam em boa medida seu triunfo geral.

O resultado mostra claramente a profunda insatisfação de parte importante do povo colombiano diante dos acordos negociados em Havana. A mensagem dos defensores do “não" a respeito do excesso de impunidade teve grande impacto e, somada à alta rejeição às Farc, explica em grande parte o resultado da votação. Não se pode também esquecer do impacto da mensagem do medo da campanha do presidente Uribe, como por exemplo a ideia segundo a qual a Colômbia estaria se tornando uma economia socialista.

A distribuição geográfica do voto não foi homogênea. O “não" venceu nas províncias do centro do país e no eixo do café, enquanto as províncias do Pacífico, do Atlântico e das fronteiras tiveram vitória do “sim”. A primeira leitura não permite dizer quais territórios mais afetados pelas Farc votaram contra os acordos, pois há resultados contraditórios, às vezes dentro de uma mesma província.

Agora a incerteza paira sobre a Colômbia. O que acontecerá com os acordos? Haverá uma renegociação ou a volta da guerra, que parece pouco provável? O que farão agora o governo e as Farc? O ex-vice-presidente Francisco Santos, um dos porta-vozes do “não”, fez uma declaração sumamente conciliatória depois que o resultado foi conhecido. Na interpretação dele, os acordos são válidos em termos gerais, embora necessitem de pequenos ajustes, transmitindo uma mensagem de tranquilidade e confiança à guerrilha, para que deem prosseguimento ao processo de transformação em partido político.

Nesse sentido, a sensação que se vive na Colômbia é de um catastrofismo menor do que o visto ao redor do mundo, ao menos em relação à ruína completa que é transmitida pelos principais veículos internacionais. Apesar das manchetes de certos jornais europeus e latinoamericanos, dizendo “Colômbia diz 'não' à paz”, dentro do país ganha espaço a ideia da necessidade de se reconfigurar os acordos e chegar a novos pontos de convergência. Se a ideia de um perdão ainda não foi aceita por toda a sociedade, há margem para continuar avançando na construção da paz e cresce a ideia de que ainda é possível chegar a um pacto nacional para acabar com o conflito.

As leituras que podem ser feitas do resultado do plebiscito devem levar em conta que este não se referia somente ao futuro dos acordos, servindo também como espécie de prévia das eleições presidenciais de 2018, e sob esse ponto de vista o grande vencedor foi o Centro Democrático, de Álvaro Uribe. Por outro lado, entre os derrotados estão as empresas responsáveis pelas pesquisas de opinião. Ao mesmo tempo, o resultado é uma mensagem importante para o Exército de Libertação Nacional (ELN) e para a negociação que se seguirá.

A questão central está relacionada ao futuro do processo. Tudo indica que ele deverá ser reconduzido. Não se trata de um descarrilhamento, mas de um tropeço. A partir desta terça-feira, 4, todas as partes envolvidas deverão retomar a conversa. Algumas das manifestações das Farc, como os pedidos de perdão e as declarações feitas no sábado dizendo que usariam seus recursos econômicos para ressarcir as vítimas, chegaram tarde. O mesmo vale para a mensagem do papa Francisco. Ainda assim, a paz continua ao ao alcance dos colombianos. Cabe a eles estar à altura dela. / Tradução de Augusto Calil

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