Análise: Vale a pena armar os rebeldes líbios?

Episódios passados na Bósnia e no Afeganistão guardam semelhanças com crise no país africano.

Jonathan Marcus, BBC

30 Março 2011 | 20h42

Muitos dos rebeldes líbios são apenas civis com armas

Com a oscilação de resultados das forças oposicionistas líbias, há uma preocupação crescente entre a coalizão de que apenas bombardeios aéreos possam não ser suficientes para impedir a derrota rebelde, levando a temores de atrocidades que possam ser cometidas por Muamar Khadafi.

Dada a disparidade de poder bélico entre os dois lados, alguns países da coalizão já discutem a possibilidade de superar as possíveis restrições do embargo de armas para a Líbia e passar a fornecer treinamento e equipamentos para os rebeldes.

Logicamente, já passamos por isso e as lições do passado podem nos oferecer dicas interessantes.

Na Bósnia, durante o começo da década de 1990, as forças muçulmanas foram totalmente superadas em termos militares pelos sérvios. O embargo de armas da ONU serviu apenas para manter essa disparidade.

Após Bill Clinton assumir o governo americano, ocorreu um amplo debate, dentro e fora de sua administração, a respeito de assumir uma posição nova na crise. As conclusões foram quatro palavras: "cancelar", "armar", "treinar" e "atacar".

Soa familiar?

A ideia era acabar com o embargo de armas, armar e treinar forças muçulmanas e, enquanto isso ocorria, atacar com o poderio bélico americano para manter distantes as forças sérvias.

À época, o plano não foi implementado, mas a Otan se viu cada vez mais envolvida no conflito, primeiro por meio de ataques aéreos para implementar uma zona de exclusão aérea (isso também para familiar?).

A crise se tornou uma enorme campanha contra alvos sérvios na Bósnia. Um subsequente acordo de paz foi mantido com a presença de cerca de 60 mil tropas da Otan no local.

O que aconteceu no Afeganistão recomenda ainda mais cautela. Na década de 1980, os EUA financiaram rebeldes anti-soviéticos. Boa parte do dinheiro para comprar armas chegou ao Afeganistão por meio do Paquistão.

Muitos dos recursos foram para grupos islâmicos radicais que lutavam e em quem o Paquistão confiava para implementar suas metas estratégicas na região.

A decisão americana se transformou em um fantasma que voltou para assombrar administrações futuras. Quando os soviéticos deixaram o Afeganistão, muitos dos grupos armados pelos EUA passaram a se dedicar ao movimento jihadista internacional, tendo os Estados Unidos como alvo.

Não espanta, portanto, que a declaração do comandante militar americano na Europa, James Stavridis, de que o serviço secreto dos EUA teria detectado "sinais de possíveis simpatizantes da Al-Qaeda" entre os rebeldes líbios, cause alarme.

Mas além dessas questões políticas a respeito de armar ou não os rebeldes da Líbia, existem questões práticas cruciais também.

O tempo pode não estar do lado dos opositores de Khadafi. Mesmo equipamentos relativamente simples precisam ser manejados como um mínimo de técnica para ter algum impacto no campo de batalha.

E além do equipamento, o ponto mais fraco dos rebeldes pode ser organização. Muitos deles são pouco mais do que civis armados.

É verdade que eles parecem ter tanques e lançadores de mísseis operados por desertores do regime, mas agrupar todos eles em uma força milita funcional e capaz não é trabalho de semanas, mas sim de meses.

Se existir tempo suficiente, onde deve ocorrer o treinamento e quem deve fornecê-lo? Necessitará de especialistas estrangeiros?

Este é o tipo de trabalho que as Forças Especiais americanas realizaram em vários lugares, mas claramente necessita do envio de tropas que atuem no solo.

Apenas o fato de que o debate a respeito de armar e treinar a oposição já começou é sinal inequívoco de oscilação na coalizão. Medo de que a derrota das forças de Khadafi possa não ser inevitável mesmo com a aplicação de seu vasto poderio aéreo.

Se as derrotas rebeldes continuarem, o volume do debate só tende a aumentar. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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