Senate Television via AP
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Análise: Vazamento de livro reduz opções para defesa de presidente

Fazendo jus ao cliente, a abordagem que a equipe de advogados de Donald Trump adotou para defendê-lo do impeachment no julgamento no Senado concentra-se em bravatas, indiferença e negação

Philip Bump / W. Post, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2020 | 05h00

WASHINGTON - Fazendo jus ao cliente, a abordagem que a equipe de advogados do presidente Donald Trump adotou para defendê-lo do impeachment no julgamento no Senado concentra-se em bravatas, indiferença e negação. “Uma vez descartadas as interferências indevidas, os palpites, os vazamentos seletivos e os interrogatórios sigilosos de testemunhas escolhidas a dedo, o que sobra são fatos-chave que não mudaram nem vão mudar”, disse no sábado o advogado Michael Purpura, da equipe de defesa. 

Entre esses fatos, está a argumentação do conselheiro da Casa Branca Pat Cipollone de que a transcrição da conversa telefônica de 25 de julho entre Trump e o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, “mostra que o presidente não impôs condições para a concessão de ajuda militar ou para um encontro com Zelenski”. Não na ligação, explicitamente. Mas a equipe de Trump entrou em contato com um assessor de Zelenski antes do telefonema, dizendo que uma reunião na Casa Branca dependia de uma das investigações políticas que Trump desejava.

Outro fato alegado por Purpura é que “nem uma única testemunha afirmou que o presidente disse haver relação entre investigação, concessão de ajuda militar e um encontro com ele”. As palavras mais importantes nessa frase são “testemunha” e “afirmou”. Ao incluí-las, a equipe de Trump restringiu o alcance do que está em pauta, usando a mesma artimanha adotada ao ignorar na avaliação da transcrição um contraponto óbvio.

Em 17 de outubro, o chefe interino de gabinete da Casa Branca, Mick Mulvaney, convocou uma entrevista coletiva na qual fez o que nenhuma testemunha fizera sob juramento: conectou as investigações a um ato oficial da Casa Branca. No telefonema de julho, Trump pediu uma investigação sobre uma teoria da conspiração centrada na interferência russa na eleição de 2016 e no hackeamento do Comitê Democrata Nacional (CDN).

Mulvaney defendeu o pedido usando os mesmos argumentos que Trump usara quando surgiu o escândalo envolvendo a Ucrânia: estava preocupado com corrupção e com outros países também estarem prometendo dinheiro à Ucrânia. 

No domingo à noite, The New York Times informou que Trump disse ao então conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, que pretendia reter a ajuda até Zelenski concordar em fazer as investigações, segundo um livro que será publicado por Bolton.

Bolton foi convocado pela Câmara a testemunhar em novembro, mas se recusou, preferindo esperar para ver se os tribunais decidiriam em favor da Câmara em outros casos em que intimações foram questionadas.

O surgimento de uma segunda potencial testemunha dizendo precisamente o que a equipe de Trump afirma não existir cria um grande problema para os republicanos no Senado. Purpura tenta claramente excluir Mulvaney, mas eis que se cria um novo contraponto: como argumentar contra Mulvaney e Bolton serem chamados como testemunhas? 

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Os advogados de Trump e os republicanos do Senado inclinados a apoiar o presidente estão num beco sem saída. Ou eles ignoram a reportagem do Times, e deixam sobre a mesa evidências obviamente condenatórias, ou abrem as comportas para novos testemunhos e evidências.

Os advogados podem, é claro, fazer à moda de Trump: usar as más notícias para um ataque total à oposição – tática que já funcionou outras vezes. O vazamento dos detalhes do livro de Bolton deu à equipe jurídica de Trump todas as 20 horas para descobrir qual caminho eles escolheriam. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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