Augustin Marcarian/Reuters
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Análise: Visita inesperada de Bolsonaro e em péssima hora

Argentina atravessa um momento econômico complexo e candidatura de Macri à reeleição é contestada

Carlos De Angelis, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2019 | 05h00

Vestidos de modo igual – paletó azul, camisa azul-celeste e gravata em tons de azul –, Jair Bolsonaro e Mauricio Macri fizeram sua apresentação formal na cúpula desta quinta-feira (6). Os temas comentados pelos dois foram os esperados: integração energética, melhoria logística, agilização de intercâmbios, aceleração do demorado acordo de livre-comércio e, claro, a Venezuela.

Mas Bolsonaro deu um passo a mais ao almejar que não surjam na América “novas Venezuelas” e entrou, sem dissimular, na campanha eleitoral argentina. Pediu aos argentinos que votem “com mais responsabilidade, mais razão e menos emoção”, dando a entender que os eleitores kirchneristas se deixam levar por fatores emocionais.

A visita era esperada como a primeira de seu governo, como era tradição de líderes anteriores. O encontro também era esperado na reunião do G-20, mas não aconteceu. Finalmente, sua presença na Argentina se concretiza numa hora complicada para Macri por duas razões.

Primeiro, a Argentina atravessa um momento econômico complexo, de inflação alta e forte recessão. Segundo, os questionamentos sobre a candidatura de Macri à reeleição, quando muitos acham que a governadora de Buenos Aires, María Eugenia Vidal, seria uma melhor opção, segundo pesquisas. Ao mesmo tempo, Macri contava com o crescimento da economia brasileira para melhorar seus resultados econômicos, o que não está ocorrendo.

Na semana anterior, Bolsonaro deu uma entrevista ao diário argentino La Nación cujo título foi: “Eu me esforço para que os argentinos elejam um candidato de centro-direita”. A mensagem fez engasgar os estrategistas de Macri, que preferem buscar sua força política no indefinido espectro da pós-ideologia. Isso implica em se distanciar de muitas das iniciativas impulsionadas por Bolsonaro, pelo menos publicamente, exceto com relação à “mão dura em matéria de segurança”.

As declarações tendendo para a direita só conseguem sensibilizar uma faixa pequena dos eleitores de Macri. O restante prefere que ele se aproxime de um espaço mais centrista e próximo de um progressismo liberal, com temas como o aborto.

Talvez por isso, para suavizar a dura imagem dos dois, foi aberto ontem um congresso internacional sobre a deficiência, com a vice-presidente argentina, Gabriela Michetti, que é cadeirante, e a primeira-dama brasileira, Michelle Bolsonaro, que se expressou usando a linguagem de sinais. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

É PROFESSOR DE SOCIOLOGIA DA OPINIÃO PÚBLICA NA UNIVERSIDADE DE BUENOS AIRES

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