Michael Wyke/AP
Michael Wyke/AP

Análise: Vitória na Carolina do Norte reforça tese de que Biden tem mais chance contra Trump

Considerado estado-pêndulo, que pode votar tanto em um democrata quanto em um republicano, Carolina do Norte é capaz de decidir a eleição nos EUA

Beatriz Bulla, Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 14h19

A lembrança da eleição de 2016 é viva demais para esquecer que o voto popular não é o que importa nos Estados Unidos na disputa presidencial. Hillary Clinton teve 3 milhões de votos a mais do que Donald Trump, mas o Partido Democrata perdeu no xadrez do colégio eleitoral.

Os Estados-pêndulo são o que realmente muda o resultado da corrida de republicanos e democratas e, nesta Superterça, um deles estava em jogo. Dos 14 Estados em questão na terça, a Carolina do Norte é o que pode votar tanto por Trump como por um democrata em novembro.

Há outros que devem entrar em disputa num eventual redesenho do mapa eleitoral, mas isso depende da força e tática de cada campanha. No caso da Carolina do Norte, o título de swing state é incontestável.

É neste Estado em que a vitória acachapante de Joe Biden na Superterça ganha o ar de nomeação. O establishment do partido democrata já vinha demonstrando preocupação com o crescimento da candidatura do senador independente.

A hipótese é de que ele não tem vez contra Trump em novembro - o que soava como uma justificativa para que os superdelegados entrassem em cena na convenção de julho para nomear Biden, ainda que Sanders viesse a ter a maior parte dos eleitores consigo.

Para Entender

O que é a Superterça e por que ela pode ser crucial na eleição dos EUA

Votações em 14 estados e um território americano vão definir 35% dos delegados em corrida democrata; Sanders e Biden se consolidam como principais rivais

As pesquisas nacionais põe em xeque a presunção democrata, ao mostrar o senador com chance de ganhar do republicano que hoje ocupa a Casa Branca. Mas o teste de Biden no swing state da vez alimenta dentro do partido a tese de que ele é o nome mais competitivo para a eleição deste ano.

Diante da clara reação partidária - que culminou com a coordenação entre Pete Buttegieg e Amy Klobuchar de endosso a Biden -, Sanders precisaria de uma onda muito favorável na Super Terça para chegar com distância tal na convenção que fosse constrangedor para o partido escolher outro nome. Não foi o que aconteceu. 

Levar a Carolina do Norte seria simbólico, onde o senador ganharia o argumento de que é capaz de energizar os eleitores em um Estado que votou em Trump. O Estado vinha votando em republicanos desde Ronald Reagan até que chegou a candidatura de Obama. Em 2008, a Carolina do Norte votou azul, mas não repetiu o resultado em 2012 e, em 2016, elegeu Trump com 49% dos votos.

A perspectiva de Sanders levar o Estado parecia difícil nas pesquisas, mas não impossível: o vice-presidente tinha uma margem bastante apertada de vantagem sobre o senador. Mas na noite de ontem Biden ganhou 19 pontos a mais do que Sanders no swing state.

Em quantidade de delegados, a Califórnia é o grande prêmio das prévias, de fato. Mas os californianos já são garantidamente democratas e não está ali o termômetro da eleição presidencial.

A tese de que é preciso construir uma candidatura de centro para ter força em novembro já chegou no eleitorado. Janice Brunson é de Maryland, na Virgínia, mas mudou no início de fevereiro para Charlotte, na Carolina do Norte. Marcou o nome de Joe Biden na cédula de votação nesta terça, apesar de dizer que tem muito mais afinidade com as propostas de Sanders.

"Bernie Sanders não é tolerado no meio-oeste do país. Biden é o que tem mais chances de vencer Trump", disse. O centro-oeste americano concentra Estados rurais, como Iowa, e parte do chamado Cinturão da Ferrugem, onde está o operariado de renda familiar e escolaridade mais baixos do que a média nacional dos EUA. Foram esses eleitores que deram a Trump a vitória em 2016 ao colaborarem para a mudança no mosaico do Colégio Eleitoral.

Minnesota é um dos Estados que integra o meio-oeste. Desde que chegou à Casa Branca, Trump vem dizendo que fará ali um campo de batalha para tornar o Estado vermelho em 2020. Sanders liderava as pesquisas, mas ontem os eleitores de Minnesota deram a vitória a Biden - em um movimento favorecido pelo apoio de Klobuchar, senadora pelo Estado, ao ex-vice-presidente. Mais um empurrãozinho à tese dos caciques do partido democrata.

Nesta linha de pensamento, Bernie Sanders tem a seu favor a vitória conquistada ontem no Colorado - fora a predileção ao seu nome frente ao de Biden em Iowa, há um mês. Apesar de não ser um Estado pêndulo e ter votado por democratas desde Obama, o Colorado é acompanhado com lupa por analistas.

Segundo o  professor da Universidade George Washington e presidente do instituto de pesquisa Idea Big Data, Maurício Moura, o Colorado tem avaliação de Trump mais positiva do que negativa e a campanha do presidente tem muita presença no local. É possível, portanto, ver o Colorado votar vermelho em novembro.

Mas, como em Minnesota, a virada no Colorado é uma dúvida, enquanto a briga na Carolina do Norte é uma certeza.  A ver o que outros swing states terão a dizer até a convenção de julho, começando por Michigan, que faz suas prévias na semana que vem. Por ora, o establishment do partido democrata parece ter encontrado na Carolina do Norte um elemento que faltava para colocar a campanha de Biden no trilho para a nomeação.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.