Gerald Herbert/AP
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Análise: Votação nos EUA expôs fragilidade que presidente quer evitar

Trump não está só otimista diante da derrota; ele está negando a realidade

Philip Bump / The Washington Post  , O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 06h00

Uma maneira de pensar sobre a resposta do presidente Donald Trump às eleições desde 2016 é que ele é otimista. O tipo de pessoa para a qual o copo está sempre meio cheio, como se diz. Sua resposta do dia seguinte às óbvias derrotas republicanas é inabalável: o que aconteceu foi bom.

Essa apresentação das reações de Trump, no entanto, subestima um pouco as coisas. Trump não está só otimista diante da derrota; ele está negando a realidade. Suas afirmações de que as coisas correram bem são parte de uma apresentação incessante de sua própria infalibilidade, mas, embora ele possa muitas vezes falsificar a realidade para reivindicar a vitória, as eleições - com seus vencedores e perdedores geralmente claros - tornam isso um pouco mais difícil.

Depois que a votação se encerrou na terça-feira em Kentucky, não demorou muito para a equipe de Trump começar a reformular a realidade do que acontecera. O fato, é claro, é que um governador republicano em um Estado no qual Trump ganhou por 30 pontos perdeu sua chance de reeleição.

Certamente, o governador Matt Bevin era profundamente impopular e polêmico, de uma maneira que se destacou até mesmo para um político, e, com certeza, os republicanos com menos votos se saíram muito melhor, mas é difícil escapar do fato de que o Partido Republicano pressionou duramente para que Bevin mantivesse seu cargo no Estado vermelho (denominação para um Estado que costuma votar nos republicanos nas presidenciais).

O próprio Trump o visitou na segunda-feira, exortando os eleitores a devolver Bevin ao governo do Estado, para evitar que os meios de comunicação “digam que Trump sofreu a maior derrota da história do mundo”.

Não foi a maior derrota da história do mundo, mas foi obviamente uma derrota. Embora, de acordo com Brad Parscale, gerente de campanha de Trump, mesmo isso seja injusto. Segundo Parscale, Trump “praticamente arrastou o governador Matt Bevin até a linha de chegada, ajudando-o a correr mais do que o esperado no que se transformou em uma corrida muito acirrada no final”.

O fato de a corrida estar ao nosso alcance é o testemunho do poder de Trump. (Lembre-se, após a manifestação de Trump na segunda-feira, Parscale se gabou da habilidade da campanha em atrair eleitores pouco interessados)

Terça-feira amanheceu com Trump fazendo uma afirmação ainda mais ousada. Trump não apenas jogou Bevin nos ombros e se esforçou em direção à linha de chegada, mas também Bevin começou dos 15 - talvez 20! – pontos atrás. Porque, ao ouvir Trump dizer, essa teria sido quase uma das maiores vitórias de virada da história política moderna!

Você seria desculpado se essa falta de especificidade sobre a escala desse milagre parecer um pouco suspeita, o tipo de inflação que é a peça central da retórica de Trump.

A presidente do Partido Republicano, Ronna McDaniel, colocou um número mais específico: 17 pontos, bem no meio da variação apresentada por Trump. Claro, as pesquisas mostravam Bevin liderando ou numa corrida equilibrada, mas McDaniel e Trump fizeram uma pesquisa não pública que mostrou de forma conveniente quão poderoso é Trump na política eleitoral.

“Ninguém energiza nossa base como @realDonaldTrump”, gritou McDaniel.

Há muito disso acontecendo, essas pesquisas que mostram Trump se saindo muito melhor do que se poderia esperar. Houve uma pesquisa nas eleições especiais da Carolina do Norte, vista apenas por Trump, que mostrou como notavelmente os republicanos que corriam nesses distritos republicanos superaram as probabilidades, com a ajuda de Trump.

E, é claro, existem pesquisas mostrando o índice de aprovação de Trump em 95% no Partido Republicano, um índice de aprovação que não é comparável em qualquer outra pesquisa pública, mas, quero dizer, não é como se o presidente fosse inventar isso, certo?

Acreditamos na palavra de Trump de que as pesquisas existem, se quisermos. “Deixem-me apenas dizer a vocês”, comentou ele com repórteres no fim de semana. “Eu tenho as pesquisas reais. Eu tenho as pesquisas verdadeiras.”

Existem variações nas pesquisas, certamente. Parece apenas uma coincidência que as pesquisas mostrem quão robusta é a força eleitoral de Trump e quanto seu poder popular é o único que só ele e seus defensores afirmam terem visto.

Cínicos que somos, devemos apontar uma consideração sobreposta, o tipo de fator complicador que pode inspirar um presidente a querer reivindicar mais apoio político do que realmente desfruta.

Há uma investigação inconveniente de impeachment em Washington, uma investigação da Câmara liderada pelos democratas que representa um risco reconhecidamente pequeno para a presidência de Trump. Se ele for condenado ao impeachment na Câmara, 67 senadores poderão votar para removê-lo do cargo.

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Os republicanos controlam o Senado, é claro, portanto, para alcançar essa margem, seria necessário que 20 senadores republicanos se voltassem contra Trump. Algo que eles provavelmente não farão. . . a menos que eles comecem a ver Trump como um risco político.

Ainda não estamos lá. O fato de os democratas terem assumido o controle de ambas as câmaras da legislatura da Virgínia e a perda de Bevin não são bons sinais para o Partido Republicano, mas também não são o dia do juízo final.

A Virgínia está ficando mais azul (democrata) a cada ciclo. Bevin era impopular e sua perda não afetou as votações menos importantes do partido. (Na segunda-feira, Trump foi rápido em comemorar a vitória de seu partido na disputa pelo procurador-geral.) Foi mais uma performance abaixo da média para o partido, mas não foi tão ruim quanto, digamos, 2018.

A pergunta que os republicanos podem estar fazendo a si mesmos, no entanto, é quanto Trump realmente é um ponto forte. Ele lutou muito por Bevin, que perdeu. Ele endossou um candidato na Virgínia, que também perdeu. Ele fez campanha pelo republicano na corrida governamental do Mississippi, que venceu, mas quando você depende de vitórias de um estado já "vermelho-escuro" como um consolo, as coisas podem parecer um pouco instáveis.

Então, o que acontecerá no próximo ano? O que acontecerá quando Trump exigir que eles fiquem ao seu lado, ou então enfrentem repúdio pelo Twitter? O que acontece se eles ficarem ao lado dele? Você sabe quem mais é um político impopular? Donald Trump. O que acontece quando estão em votação ao lado de Trump, após mais um ano de investigações e revelações? Quanto podem contar com ele para trazer votos?

Em 2008, Barack Obama reuniu uma coalizão formidável de eleitores que impulsionou sua maciça vitória presidencial sobre John McCain. Dois anos depois, surgiu uma pergunta: Obama poderia cumprir o prometido para seu partido mesmo que não estivesse nas urnas? Ele não podia; os republicanos ganharam folgadamente em 2010.

Dois anos depois, a pergunta foi invertida: Obama poderia responder por si mesmo? Ele fez isso e, com o aumento do comparecimento de eleitores do ano presidencial, os democratas recuperaram terreno. Mas em 2014, com Obama entrando em território sem futuro, os democratas foram novamente derrotados.

Os republicanos que observassem aos resultados de eleições que não incluem a escolha do presidente justificariam indagar o que o eleitorado será em 2020. É o mesmo eleitorado de 2018, aquele que votou de forma retumbante e obviamente afastando o poder de seu partido e de seu presidente? Ou foi aquele que elegeu Trump em 2016 - embora apenas graças à vantagem de 78 mil votos em três Estados? Até que ponto Trump recuperará sua base nas pesquisas e até que ponto isso beneficiará outros republicanos? Se Trump entrar na defensiva em uma eleição apertada em um Estado vermelho e não puder fazer o serviço, vale a pena tê-lo por perto com 2020 chegando?

Trump não quer seu partido fazendo essas perguntas. Ele quer que os republicanos tenham medo de suas proezas eleitorais. Ele e sua equipe não querem primárias presidenciais que ele tenha de contestar, e não querem que as próximas corridas sejam vistas como fracassos de Trump.

Eles certamente não querem que os senadores republicanos pensem que existe qualquer utilidade política em fazer qualquer coisa, exceto usar um chapéu MAGA 24/7. Até mesmo os senadores republicanos que não serão votados no próximo ano precisam ter medo do que Trump pode trazer.

Trump precisa manter seu partido na linha

Trump também não quer sua base fazendo essas perguntas. Força e vitória são a marca política de Trump de maneira tão segura e instável quanto luxo e classe eram sua marca no setor imobiliário. Houve momentos em que Trump parece ter sido atingido - como após as eleições de 2018 - e sua base ficou um pouco cautelosa. (Trump passou grande parte do ciclo insistindo que uma “onda vermelha” estava chegando e se gabando falsamente de seu histórico em endossar candidatos.)

Trump precisa de sua base para vencer, mas também precisa manter o resto de seu partido na linha. Ele precisa de todos eles para pensar que a perda de Bevin não foi uma perda de Trump, mas, de alguma forma, uma vitória de Trump.

Não é que o copo esteja meio cheio. É que ele não está tão cheio quanto Trump diz que está, e aos republicanos foram oferecidas poucas escolhas a não ser tomar um drinque. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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