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Análise: Escolha de Daca como alvo não é surpresa para ninguém

Um ataque coordenado em Gulshan, centro da riqueza e poder da elite em Daca, teria todas as características da estratégia da organização terrorista

Ishaan Tharoor* / THE WASHINGTON POST, O Estado de S. Paulo

02 Julho 2016 | 05h00

Os detalhes ainda são obscuros. Na noite de ontem, extremistas invadiram um restaurante num subúrbio de classe alta de Daca, capital de Bangladesh, atacando com tiros e granadas. Homens do Batalhão de Ação Rápida, da polícia, tomaram as ruas de Gulshan, um distrito arborizado em que vivem diplomatas e parte da elite do país. O estabelecimento invadido é padaria durante o dia e restaurante de comida espanhola à noite.

Especulações iniciais apontaram imediatamente para grupos extremistas que operam em Bangladesh, incluindo filiados ao setor asiático da Al-Qaeda e membros do Estado Islâmico. Nos últimos dois anos, houve uma onda de ataques de autodeclarados islamistas a hindus, intelectuais, escritores laicos e blogueiros de Bangladesh. 

Segundo relatos, o EI assumiu a responsabilidade por mais ataques em Bangladesh que no Paquistão ou Afeganistão. O grupo conclamou seus combatentes e simpatizantes a lançar tais ataques a alvos civis durante o mês sagrado muçulmano do Ramadã. 

O governo bengali, do primeiro-ministro Sheik Hasina, tem resistido a aceitar essa hipótese. Rejeita qualquer sugestão de que o EI tenha um núcleo no país. E afasta toda acusação de culpa por supostas falhas na resposta à crise de segurança. 

No mês passado, um importante ministro preferiu atribuir a escalada da violência a uma vaga conspiração israelense em vez de a problemas internos. Cerca de 12 mil pessoas foram detidas em operações policiais, mas a maioria era de meliantes menores e simpatizantes da oposição, segundo informou a Associated Press. 

Especialistas em contraterrorismo dizem que o governo de Hasina consome mais esforços em consolidar seu poder e eliminar partidos de oposição do que em combater a onda de violência islamista. Um recente relatório do Grupo Internacional de Crises indicou que um sistema judicial comprometido e a mão pesada da Liga Awami, partido governante, tradicionalmente secular e de centro-esquerda, abre caminho para a instabilidade e o agravamento da violência militante.

“Não há tempo a perder”, concluiu o relatório. “Se os dissidentes continuarem reprimidos, mais e mais opositores ao governo passarão a ver a violência e os grupos extremistas como únicos aliados aos quais recorrer.”

O primeiro-ministro “responsabiliza a oposição por grande parte da violência extremista, principalmente o Jamaat-e-Islaami (JI) e o Partido Nacional de Bangladesh”, informou Michael Kugelman, especialista em Sul da Ásia do Woodrow Wilson Center. “Essa acusação pode não ser de todo falsa ... Mas excluir da responsabilidade rivais políticos na intensificação da violência é na, melhor das hipóteses, ingênuo, e na pior, perigoso.” Paralelamente ao crescente extremismo, o governo do primeiro-ministro Sheik Hasina tem sido criticado por seu estilo cada vez mais autoritário. 

“Ao ignorar simplesmente o alarmante nível de violência política, o governo põe o país em grande perigo”, diz Kugelman. “E fortalece movimentos empenhados em solapar a identidade de Bangladesh como país pluralista e secular.”

Bangladesh, como nação, existe apenas perifericamente na imaginação americana. Poucos nos Estados Unidos provavelmente sabem que o país tem uma das maiores populações muçulmanas do mundo, maior que a de qualquer outra nação do Oriente Médio. Mas, na esteira do ataque terrorista de Istambul, as atenções se voltam para as táticas do EI e seus simpatizantes. Um ataque coordenado em Gulshan, centro da riqueza e poder da elite em Daca, teria todas as características da estratégia da organização terrorista. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É JORNALISTA

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