Marco Bello/Reuters
Marco Bello/Reuters

Analista vê ‘golpe popular’ sem influências para o Brasil

Para professor emérito da Universidade de Brasília, renúncia de Evo Morales não terá efeito direto no País, mas enfraquece esquerda na região

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2019 | 21h48

O “golpe popular” pelo qual passou a Bolívia no domingo, 10, terá pouca influência no Brasil ou em outros países da América Latina. A avaliação é do cientista político David Fleischer, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB). 

Segundo Fleischer, a “ânsia de poder” do ex-presidente Evo Morales, que buscava um quarto mandato e estava no comando do país desde 2006, o fez ignorar a vontade da população, que, em um referendo sobre novas eleições, impôs derrota ao presidente e, mais tarde, passou a protestar nas ruas após a eleição ser alvo de denúncias de fraudes.  

Não entendo que esses protestos ou que essa renúncia possam ter influências no Brasil e em outros países da América Latina”, afirmou Fleischer, dizendo que nações como Equador ou Chile, que passaram por protestos recentes, vivem processos e realidades particulares. “No Brasil, não creio que passaremos de declarações do ex-presidente Lula lamentando pelo ‘companheiro’”. Apesar de conquistas sociais e econômicas em seu governo, Evo também foi afetado por escândalos de corrupção e acusado de autoritarismo no comando do país de 11 milhões de habitantes. 

Horas depois da renúncia de Evo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva escreveu nas redes sociais que o boliviano fora alvo de um “golpe” e que a elite não consegue aceitar a democracia e a inclusão dos mais pobres. O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, também afirmou que o país viveu um golpe de estado “como resultado de ações conjuntas de civis violentos, policiais ‘aquartelados’ e passividade do exército”. Outro líder regional a se manifestar foi José Mujica, ex-presidente do Uruguai, que endossou a avaliação de seus colegas. 

Segundo Fleischer, mobilizações a favor de Evo no Brasil seriam lideradas por Lula, que enfrenta resistência em grande parte da população. “Onde ele vai, há gente contra”, disse, destacando que o ex-presidente pode reforçar o cenário de radicalização política no Brasil

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, discordou da avaliação de golpe. Para ele, a tentativa de fraude eleitoral maciça deslegitimou Evo Morales, "que teve a atitude correta de renunciar diante do clamor popular". Ele escreveu em seu Twitter que o Brasil apoiará transição democrática e constitucional. "Narrativa de golpe só serve para incitar violência", disse. O ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, afirmou ao Estado que a democracia saiu fortalecida do processo

Atenção

David Fleischer afirmou ainda que as Forças Armadas do Brasil e o Itamaraty seguramente acompanham atentamente a situação, estão preparados para os desdobramentos e ressaltou que a queda de Evo é favorável ao governo do presidente Jair Bolsonaro, assim como enfraquece a esquerda ligada a Lula, que busca construir uma aliança na região. 

Para Fleischer, a insistência de Evo em se manter no poder fez com que seu grupo não tivesse uma liderança renovadora e não ouvisse os anseios da população, que protestava desde o resultado da eleição, em 20 de outubro. “Não há uma liderança em ascensão em seu partido. A enorme crise política o fez sofrer um golpe popular, já que até mesmo os militares e a polícia estavam frustrados e pediam sua saída”, disse. 

Com a renúncia também do vice-presidente boliviano, Álvaro García, dos presidentes do Senado, Adriana Salvatierra, e da Câmara, Victor Borda, a linha de sucessão no país está incerta. Fleischer entende que a situação abre caminho para o segundo colocado na eleição, o ex-presidente Carlos Mesa, após um governo transitório. 

Bolsonaro pede voto impresso

O presidente da República, Jair Bolsonaro, defendeu o voto impresso no Brasil, em sua primeira manifestação pública a respeito da saída de Evo Morales do posto de presidente da Bolívia. "Denúncias de fraudes nas eleições culminaram na renúncia do Presidente Evo Morales. A lição que fica para nós é a necessidade, em nome da democracia e transparência, de contagem de votos que possam ser auditados. O voto impresso é sinal de clareza para o Brasil!", afirmou.

 

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