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Analista vê risco de traição militar a Maduro após EUA oferecerem US$ 15 milhões

Erik Del Bufalo, professor da Universidade Simon Bolívar, em Caracas, vê consequências imediatas após processos contra líderes chavistas nos Estados Unidos

Entrevista com

Erik Del Bufalo, professor da Universidade Simon Bolívar

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2020 | 19h09

O processo contra o presidente Nicolás Maduro e integrantes do alto escalão do governo venezuelano na Justiça dos Estados Unidos por narcoterrorismo, com uma recompensa de US$ 15 milhões por provas que levem à prisão do líder chavista, pode estimular atos de traição dentro das Forças Armadas venezuelanas. A avaliação é do analista Erik Del Bufalo, professor da Universidade Simon Bolívar, em Caracas. Para ele, o segundo efeito da medida é debilitar parte da 'oposição colaboracionista' que estaria disposta a dialogar com o regime de Maduro. 

"Colocar uma recompensa de US$ 15 milhões pode estimular uma vontade real de haver traições dentro do próprio sistema. Agora, há incentivos financeiros para traí-lo", disse em entrevista ao Estado. Além de Maduro, foram processados importantes quadros de apoio do governo e líderes chavistas. As alegações das autoridades americanas são de que eles conspiraram com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) - ex-grupo guerrilheiro - para vender cocaína aos Estados Unidos.  

Na sua avaliação, quais são os efeitos imediatos da decisão dos EUA? 

Há dois efeitos imediatos. O primeiro é dentro do sistema: colocar uma recompensa pela cabeça de Maduro e altos funcionários chavistas, sobretudo das forças de segurança. Ao colocar esse preço de US$ 15 milhões de dólares, pode estimular uma vontade real de haver traições dentro do próprio sistema chavista. O segundo lugar é o efeito que isso tem nas forças opositoras. 

Como isso muda o panorama da oposição?

Na Venezuela há realmente duas oposições. Uma mais radical que se opõe absolutamente a reconhecer Nicolás Maduro como presidente e a dialogar. E outra, minoritária, mas que tem muita voz. É um setor que queria a negociação para haver uma eleição geral no país, reduzir as sanções.

Com o coronavírus, essa posição teve uma desculpa para negociar e buscar ajuda internacional para eliminar as sanções. Na quarta-feira 25, um grande setor da oposição quis fazer isso, então acredito que essa medida dos EUA vem como resposta. Muita gente acusa essa oposição de colaboracionista com o regime de Maduro. A ação do Departamento de Estado dos EUA joga um balde de água fria. Não é o mesmo negociar com ele antes e depois disso. Agora é um criminoso buscado internacionalmente.  

O senhor vê realmente um potencial de traição interna?

As Forças Armadas na Venezuela são obscuras. Foram destruídas por Hugo Chávez e são realmente forças paramilitares do chavismo. Conhecendo a natureza humana, pode ser um incentivo para muitos. E não estou dizendo que deveria ser assim. O sistema chavista tem um controle e os militares são os mais vigiados. É até possível que Maduro coloque ainda mais vigilância e controle sobre os próprios militares. Quase 50% dos presos políticos venezuelanos são militares. Há milhares presos. 

Como o componente do coronavírus entra nessa discussão? 

Segundo as cifras oficiais, não há nenhum morto e cerca de 100 contaminados. Mas, claro, são números do Maduro e tampouco são confiáveis. O que ele fez foi se aproveitar do coronavírus para exercer um controle ainda mais forte sobre a população. Nada como uma quarentena para um ditador. É quase como um presente dos céus.

Estamos em uma situação global muito complicada para países como nós. Isso nos afeta em dobro. Em relação ao Brasil, foi um dos aliados da oposição na Venezuela, humanitário e político. Agradecemos muito ao povo brasileiro que ajuda os venezuelanos que cruzam as fronteiras. E esperamos que a ajuda continue uma vez que passe essa situação, porque realmente necessitamos.

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