Analistas ingleses traçam cenários para a guerra EUA-Iraque

Uma guerra no Golfo Pérsico em 2003 é dada como praticamente certa e vem preocupando cada vez mais as principais nações européias. Em geral, autoridades e analistas europeus não compartilham do mesmo grau de otimismo dos Estados Unidos de que uma ofensiva militar contra o presidente do Iraque, Saddam Hussein, será necessariamente rápida e poderá ter um impacto positivo na economia mundial. Enfrentando um cenário de desaceleração econômica e com a sua principal potência, a Alemanha, patinando numa recessão, os países da União Européia temem que uma alta sustentada dos preços do petróleo causada por um conflito mais prolongado poderia afetar ainda mais a confiança de seus consumidores e empresas, afastando de vez qualquer possibilidade de recuperação econômica neste ano. A crise na Venezuela e o seu impacto no mercado petrolífero serviu para elevar o grau de ansiedade com a possibilidade uma ofensiva militar contra o Iraque. Além disso, a ameaça perene de novos atentados terroristas poderá agravar a debilitada atividade econômica global.Na tentativa de prever qual será o impacto de uma guerra no Iraque, analistas vêm se concentrando nos últimos meses em tentar adivinhar o comportamento dos preços do petróleo. Num recente seminário realizado em Londres, o ex-economista chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), Herman Franssen, salientou que o cenário mais provável entre os europeus é de que o Iraque apresentaria uma surpreendente resistência aos ataques e o conflito se prolongaria entre seis e doze semanas. O número de vítimas civis seria maior do que o esperado e ocorreria uma razoável destruição da infra-estrutura iraquiana, afetando a capacidade de produção petrolífera do país. O conflito faria emergir também alguns sinais de descontentamento em outros países do Golfo. Com isso, o barril do petróleo atingira cerca de US$ 42 no início de 2003 e teria uma queda mais lenta nos meses seguintes, fechando o ano ainda na casa dos US$ 30.Já o economista sênior da consultoria britânica Economist Intelligence Unit (EIU), Phillip White, acredita que o cenário mais provável para uma ofensiva militar contra o Iraque é de que ela será finalizada em cerca de quatro ou cinco semanas, com o preço do barril saltando para US$ 40 e recuando logo em seguida para a casa dos US$ 20. "Mas esse é apenas um cenário básico, que contêm muitas variantes preocupantes", disse White. "Um prolongamento do conflito, com o envolvimento de outros países produtores da região e a continuação da crise na Venezuela têm o potencial de elevar o preço do petróleo a um patamar mais elevado e por um tempo prolongado." White alerta que uma alta prolongada dos preços do petróleo teria um impacto muito negativo entre os países europeus. Segundo ele, há dois tipos distintos de desaceleração econômica na região. "Na Alemanha, por exemplo, vemos uma queda nos gastos entre consumidores e empresas, mas na França e Grã-Bretanha o vigor dos gastos dos consumidores vem servindo como freio para a queda da atividade econômica", disse. Venezuela é um complicador, diz analistaPara o chefe de pesquisa da corretora de commodities GNI, Lawrence Eagles, a crise na Venezuela "se tornou no grande fator de complicação para o petróleo numa guerra no Iraque". Ele explica que com a greve que já dura cinco semanas na estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), o país está deixando de exportar cerca de 2,4 milhões de barris diários. Já o Iraque exportou cerca de 1,5 milhão de barris diários em 2002. "Ou seja, a perda das exportações da Venezuela, que abastece principalmente os Estados Unidos, é muito mais preocupante do que uma interrupção da produção iraquiana, que inclusive tem sido irregular", disse Eagles. "Como a situação na Venezuela não está dando mostras de que poderá ser normalizada no curto prazo, a combinação desses dois eventos poderia elevar a incerteza dos mercados."O analista acredita que os membros da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) deverão aumentar a sua produção caso os preços da commodity subam ainda mais. "Mas ainda há dúvidas sobre o quanto eles podem aumentar e com que rapidez", observou. Eagles alerta, no entanto, que as análises mais pessimistas pode estar sendo exageradas. "No caso de uma crise, a Agência Internacional de Energia teria condições de coordernar o abastecimento de emergência através dos estoques estratégicos mantidos pelos países que integram a entidade", disse. Segundo ele, isso aliviaria um impacto negativo sobre os preços no curto prazo e daria tempo à Opep para aumentar a sua produção. Eagles lembra também que os preços do petróleo atingiram durante o seu pico alguns meses antes da guerra do Golfo, em 1991. E logo depois que a guerra começou, os preços do barril despencaram US$ 5", disse. "Nada impede que isso não se repita, ainda mais se ficar claro rapidamente que a guerra será curta e sem efeitos colaterais no Oriente Médio.

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