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Analistas militares e 95% dos judeus de Israel apoiam ofensiva

Israel não tinha outra escolha, a não ser a atual ofensiva por terra contra o Hamas. Os bombardeios e incursões cíclicos na Faixa de Gaza são necessários, porque Israel não pode desviar sua atenção da ameaça principal, o programa nuclear iraniano, para uma ocupação de longo prazo do território, que aniquilaria de vez o Hamas.

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2014 | 02h01

A ação é proporcional à ameaça que os foguetes do Hamas representam: de paralisar o único aeroporto internacional do país e, com ele, sua economia, além de mandarem parte de seus moradores cotidianamente para abrigos subterrâneos. Foi o que disseram ontem ao Estado dois especialistas em assuntos estratégicos, conflitos e terrorismo.

"Não conheço nenhum país do mundo que não reagiria às ações terroristas e à barragem de foguetes lançados a partir da Faixa de Gaza", defendeu Yoram Schweitzer, diretor do Programa sobre Terrorismo e Conflito de Baixa Intensidade do Instituto de Estudos de Segurança Nacional, que acaba de apresentar um estudo sobre a incursão israelense. "Quando israelenses são atacados, Israel é obrigado a defender seus cidadãos", continuou Schweitzer, argumentando que o crescimento nas baixas de civis se deve ao fato de o Hamas utilizá-los como escudos humanos.

"No último ano e meio, Israel elevou sua capacidade de defesa, enquanto o Hamas investiu todo o seu capital em medidas ofensivas", analisou Schweitzer. "Israel não pode evitar a morte de civis, embora tenha tomado imensas medidas para isso."

De acordo com uma pesquisa da Universidade de Tel-Aviv, 95% dos judeus israelenses aprovam a ofensiva e apenas 4% veem uso excessivo de força. O conflito, no entanto, cobra um preço alto daqueles que vivem do turismo. Nesse período de verão no Hemisfério Norte, Israel normalmente recebe grande quantidade de europeus e americanos. Um taxista do Aeroporto Ben Gurion estimou que a queda de passageiros seja de 60% para a época do ano.

Hillel Frisch, do Centro Begin-Sadat de Estudos Estratégicos, da Universidade Bar-Ilan, observa que Israel experimentou recentemente dois modelos de contenção do inimigo: a reocupação de áreas da Cisjordânia, em 2002, e a guerra contra o Hezbollah no Líbano, em 2006.

A ação de 2002 foi de grande envergadura e duração, e possibilitou a Israel eliminar focos de resistência do Hamas na Cisjordânia. Feito isso, Israel e a Autoridade Palestina (AP), dominada pela facção moderada Fatah, adversária do Hamas, puseram em prática uma coordenação operacional. A AP patrulha o território de dia e o Exército israelense, de noite. O Hamas não recuperou mais sua capacidade de ação na Cisjordânia, observa Frisch.

Já no Líbano, Israel fez uma intervenção rápida, para destruir a infraestrutura do grupo xiita Hezbollah. Não houve uma ocupação abrangente do Líbano, mas apenas uma ação de "contenção". O objetivo era que a milícia libanesa "aprendesse a lição" e de fato, de lá para cá, o Hezbollah deixou de representar um problema para Israel, constata Frisch.

Essa doutrina está sendo aplicada contra o Hamas na Faixa de Gaza, sem sucesso até agora: Israel realizou ofensivas semelhantes à de agora em 2009 e em 2012, mas, passado um tempo, o Hamas continuou atacando o país e permitindo que a Jihad Islâmica e células salafistas (muçulmanos radicais) o fizessem com frequência do território por ele controlado.

"Então, por que o governo de Binyamin Netanyahu insiste nisso?", pergunta Frisch, para responder: "Porque uma ocupação da Faixa de Gaza por um ou dois anos desviaria sua atenção da ameaça mais importante, representada pelo programa nuclear iraniano. Podemos viver com os ataques do Hamas, mas tememos que não com um Irã nuclear."

Com base nessa análise, diz Frisch, a maioria dos analistas israelenses concorda com a estratégia de Netanyahu. "A cada dois ou três anos, Israel ataca o Hamas, na esperança de que ele aprenda a lição."

Frisch diz que a retirada dos embaixadores sul-americanos (incluindo o do Brasil, do Peru, do Chile e de El Salvador), com queixas sobre a falta de proporcionalidade da operação israelense, não leva em conta o fato de que, ao lançar foguetes nas proximidades do Ben Gurion, em Tel-Aviv, o Hamas está tentando atingir o único aeroporto internacional do país, cuja paralisação traria sua "ruína econômica".

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