Analistas querem ver passos do Irã para avaliar acordo

O anúncio do acordo sobre o programa nuclear iraniano feito pelo Irã, o Brasil e a Turquia foi recebido com cautela por analistas no Brasil ouvidos pela Agência Estado. Pelo pacto, cujo texto na íntegra ainda é desconhecido, o Irã enviará urânio pouco enriquecido ao território turco, recebendo em troca combustível para seu reator de pesquisas em Teerã. Um dos entrevistados cita como uma das razões de seu ceticismo o fato de não estar claro se o país permitirá todas as inspeções exigidas pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

GABRIEL BUENO DA COSTA, Agência Estado

17 Maio 2010 | 13h23

"Se esse acordo for acompanhado de um discurso e de uma prática ambíguos, o êxito dele pode se esvair rapidamente", analisou, em entrevista por telefone à Agência Estado, o professor Alcides Costa Vaz, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB). Segundo ele, os próximos passos nessa questão dependerão "da coerência e da transparência do governo iraniano".

Vaz lembrou que o Irã anunciou no ano passado a existência de algumas instalações nucleares que não eram conhecidas internacionalmente. Esse foi um passo no sentido da transparência, mas também causou preocupação, pela possibilidade de existirem outras instalações não conhecidas. "Seria importante que o Irã tivesse também todas as suas instalações sujeitas às salvaguardas da AIEA."

Vaz notou que não foi divulgada a íntegra do acordo, portanto ainda não há informações precisas sobre seu conteúdo. O Itamaraty publicou hoje em seu site uma declaração conjunta de Irã, Turquia e Brasil, explicitando alguns pontos do pacto.

O texto afirma que Teerã informará a AIEA por escrito, em até sete dias a partir desta segunda-feira, sobre sua concordância com o acordo das três partes. "Quando da resposta positiva do Grupo de Viena (Estados Unidos, Rússia, França e AIEA), outros detalhes da troca serão elaborados por meio de um acordo escrito e dos arranjos apropriados entre o Irã" e esse grupo, informa o texto, lembrando que o Grupo de Viena "se comprometera especificamente a entregar os 120 quilos de combustível necessários para o Reator de Pesquisas de Teerã".

Prematuro

O professor de Relações Internacionais Heni Ozi Cukier, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), também disse ser prematuro para se fazer um julgamento sobre o acordo esboçado. "Não é um acordo antes de todas as partes assinarem", disse.

Além disso, Cukier afirmou que a principal fonte de divergências sobre o programa nuclear iraniano é o fato de o país não permitir que os inspetores da AIEA realizem seu trabalho integralmente. Supostamente, o Irã, por ser um signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), já deveria autorizar essas inspeções", apontou Cukier.

O professor da ESPM cita três pontos em aberto: a questão das inspeções, a quantidade de urânio a ser transferida para o exterior e, por fim, a necessidade de o país parar de enriquecer urânio.

Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano afirmou hoje que o país não pretende parar de enriquecer urânio a 20%. "O acordo soa mais como uma tática iraniana para ganhar tempo", avaliou Cukier.

O Irã sofre intensa pressão internacional para interromper o enriquecimento de urânio. Esse processo pode ser usado para fins pacíficos, mas também para a produção de armas nucleares. Teerã alega ter apenas fins pacíficos, como a produção de energia, mas potências lideradas pelos Estados Unidos suspeitam que o país busque uma bomba secretamente. O Irã já sofreu três rodadas de sanções no Conselho de Segurança (CS) da ONU e está sujeito a uma quarta rodada, por se recusar a interromper o enriquecimento de urânio e também por não permitir todas as inspeções almejadas pelos funcionários da AIEA.

Cukier disse que o Irã se comporta de maneira similar há dez anos, anunciando acordos que depois não são totalmente cumpridos. "O Irã diz que não vai parar de enriquecer (urânio), então já é uma contradição."

Risco

O professor Ramalho, da UnB, não acredita que o Brasil possa ficar em uma posição ruim nessa questão, por sua ênfase na negociação e pela viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Teerã para buscar o pacto. Reconhecendo que a iniciativa "foi um risco político muito grande", Ramalho vê o pacto como um signo positivo, mas recomenda cautela. "Não faria comemorações olímpicas. Foi um ponto positivo, mas é preciso atenção ao que se segue."

Cukier acredita que "o Brasil vai tentar capitalizar em cima disso", mas vê o anúncio com ceticismo. "Se isso se mostrar o que parece ser, vai ser algo irrelevante, na verdade."

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