Jonathan Ernst/REUTERS - 22/10/2020
Jonathan Ernst/REUTERS - 22/10/2020

Analistas temem que Trump revele segredos de Estado após deixar cargo

Características do perfil do presidente preocupam ex-agentes, entre elas a indisciplina, as dívidas e a revolta com o governo 

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2020 | 19h20

WASHINGTON - Como presidente, Donald Trump já revelou informações confidenciais para atacar adversários, obter vantagens políticas e impressionar ou intimidar governos estrangeiros, em alguns casos, colocando em risco os serviços de inteligência dos Estados Unidos. Analistas temem que, como ex-presidente, ele possa fazer o mesmo, o que representa um dilema de segurança nacional único para o governo de Joe Biden.

Segundo funcionários e ex-funcionários do governo, todos os presidentes deixam o cargo com valiosos segredos na cabeça, incluindo os códigos e procedimentos para o lançamento de armas nucleares, capacidades de coleta de inteligência e o desenvolvimento de avançados sistemas de armas. Mas nenhum novo presidente jamais teve de se preocupar com isso. 

Trump cumpre todo o perfil de risco clássico de contraespionagem: está endividado e revoltado com o governo dos EUA. “Qualquer pessoa que esteja irritada ou ofendida corre o risco de divulgar informações confidenciais. Trump se encaixa nesse perfil”, disse David Priess, um ex-agente da CIA. 

Depois de deixar o cargo, Trump ainda terá acesso aos registros confidenciais de seu governo, mas ele perderá a capacidade legal de divulgá-los quando Biden assumir, em janeiro.

“Um presidente com perfil de Trump, incluindo falta de disciplina, seria um desastre. A única vantagem aqui é que ele não tem prestado atenção nos briefings”, disse Jack Goldsmith, ex-chefe do Gabinete de Conselheiro Jurídico do Departamento de Justiça.

Durante a presidência, Trump foi descuidado. Em agosto de 2019, ele tuitou uma imagem aérea detalhada de uma plataforma de lançamento iraniana. Essas fotos estão entre as peças de inteligência mais bem protegidas dos EUA, pois revelam detalhes precisos de técnicas de espionagem. Usando dados disponíveis na internet, é possível determinar qual satélite tirou a foto e identificar sua órbita com base na imagem divulgada por Trump.

Outra dor de cabeça serão as dívidas. Ao deixar o cargo, Trump terá de lidar com centenas de milhões de dólares em empréstimos. “Pessoas com dívidas sempre são motivo de grande preocupação para os profissionais de segurança”, disse Larry Pfeiffer, ex-oficial de inteligência da CIA. “A condição humana é frágil. E as pessoas em situações terríveis tomam decisões terríveis. Muitos dos indivíduos que cometeram espionagem contra os EUA são pessoas financeiramente vulneráveis.”

Para proteger esses dados, há a Lei de Espionagem, que já foi usada para condenar funcionários públicos que divulgam informações que prejudicam a segurança nacional. No entanto, ela nunca foi usada contra um ex-presidente. A partir de 20 de janeiro, porém, Trump se torna um cidadão comum e sua imunidade desaparece. / W.Post

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