Anarquia em terra leva à pirataria no mar

A pirataria é uma consequência, no mar, da anarquia em terra. A Somália é um país falido que tem a costa mais extensa da África. O historiador francês Fernand Braudel definiu no século 20 a pirataria como uma "forma secundária de guerra", que, assim como movimentos rebeldes em terra, tende a aumentar nos intervalos dos conflitos entre grandes países ou impérios. Como a União Soviética deixou de existir e a influência americana no Terceiro Mundo está em refluxo, têm irrompido conflitos irregulares, que provavelmente continuarão até o surgimento de novos impérios.Os piratas somalis são em geral jovens desempregados criados em uma atmosfera de violência anárquica, que um senhor da guerra local despacha para procurar dinheiro. É uma forma de crime organizado praticada por gangues nos oceanos. Os 73,44 milhões de km² do Oceano Índico onde os piratas vagueiam são uma espécie de avenida de Mogadíscio. Os piratas nada temem porque cresceram em uma cultura na qual ninguém espera viver muito. As células de piratas consistem frequentemente de dez homens com pequenos barcos, infestados de ratos e baratas. Os barcos levam água potável, gasolina para o motor, ganchos para abordagem, escadas, facas, rifles, granadas e qat, uma droga leve para mascar. A tripulação alimenta-se de peixe cru.Os pequenos barcos são usados para atacar embarcações um pouco maiores, em geral navios de pesca. Os piratas usam então o navio apreendido para tomar um barco maior e depois outro, aumentando as dimensões de suas presas. As embarcações menores e suas tripulações acabam sendo liberados. Quanto maior o navio, maiores os resgates, que as confederações de piratas investem em equipamentos sofisticados.A pirataria é endêmica do Golfo de Áden ao Estreito de Malaca desde que navegadores ocidentais começaram a frequentar essas águas, como os portugueses no século 16. O grande perigo nos dias de hoje é que a pirataria pode servir de trampolim para os terroristas. Usando técnicas piratas, pode-se sequestrar e dinamitar navios em um estreito muito frequentado, fazer reféns em navios de cruzeiro. A Al-Qaeda pode estar estudando o episódio no qual somalis atacaram um cargueiro da Maersk e foram repelidos pela tripulação.Chegamos então ao espetáculo do destroier americano, com armas suficientes para destruir uma pequena cidade, enfrentando um punhado de piratas em um bote salva-vidas. Os piratas, assim como os terroristas, podem nos atacar de forma assimétrica. Nosso desafio não está apenas em fazer frente ao aumento do poderio naval chinês, mas também em encarar riscos não convencionais que exigem uma Marinha mais rudimentar, para combates de rua.Nos últimos anos, o público americano foi humilhado pelas limitações do nosso poderio militar em guerras em terra. O fato de que um número pequeno de piratas pertencentes a uma nação faminta possa ameaçar importantes rotas marítimas é mais um sinal de que a anarquia será característica de um mundo multipolar. Um mundo no qual uma grande Marinha como a dos EUA estará em relativo declínio, enquanto outras não terão a coragem ou a capacidade de vigiar os mares.*Robert D. Kaplan é membro do Center for a New American Security

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