Anarquistas são da classe média

Tumultos são sintoma de problema cultural, não social

Stathis N. Kalyvas *, O Estadao de S.Paulo

13 de dezembro de 2008 | 00h00

Atenas, juntamente com muitas outras cidades gregas, está conflagrada há dias. Os tumultos foram desencadeados depois que um adolescente foi morto pela polícia no sábado à noite. Como entender uma reação que parece tão desproporcional? Vários observadores assinalaram os suspeitos habituais: má administração e corrupção; o colapso da confiança no governo; escândalos políticos; um crescente abismo entre ricos e pobres. Esses argumentos são insatisfatórios: a Grécia não é muito excepcional em termos de problemas, mas tumultos e destruição nessa escala são incomuns na Europa. Na verdade, esses tumultos são um sintoma de um problema profundo, mais cultural do que social. Os jovens revoltosos não são necessitados, pobres, ou mesmo imigrantes (como na França). São, na maioria, adolescentes normais, filhos da classe média; aliás, o adolescente morto pela polícia morava em um dos subúrbios mais exclusivos de Atenas. Por que, então, eles estão reagindo dessa maneira? Após a transição da Grécia para a democracia, em meados dos anos 70, um discurso público de resistência contra a autoridade surgiu e se impôs. A desobediência civil, incluindo manifestações violentas e a destruição de propriedade pública, é quase sempre justificada, se não glorificada, e a polícia só pode estar errada: se age com muito vigor, é brutal; se não, incompetente. Esse discurso mostrou-se extremamente resistente ao tempo e a acontecimentos mundiais, como a queda do Muro de Berlim, e é promovido na mídia. Por um lado, vários jornalistas tornaram-se adultos em meados dos anos 70 e são abertamente simpáticos a ele. Por outro, organizadores políticos o vêem como um recurso que pode ser facilmente usado para fins políticos e até econômicos.Por conseguinte, todos os governos, desde os anos 70, ficaram de lado enquanto crescia uma subcultura anarquista, completa, com seu enclave urbano exclusivo (o bairro de Exarcheia no centro de Atenas que é uma terra de ninguém para a polícia). Em intervalos regulares e diversas ocasiões (por exemplo, a visita do então presidente Bill Clinton à Grécia, várias reformas educacionais, etc.), anarquistas promovem manifestações violentas e destruições generalizadas. Eles são liderados por um núcleo - de 500 a 1 mil pessoas - que se fortaleceu desde o fim dos anos 90 e fantasia que está empreendendo uma espécie de revolução social do século 19 contra a burguesia. Dependendo da popularidade da questão, ele é reforçado por centenas ou milhares de pessoas com menor comprometimento e motivações variadas - da ideologia ao mero saque - que são socializadas nessa cultura. Sustentando essas ações está uma ausência mais ou menos completa de sanções - poucas pessoas são presas e quase nenhuma é condenada. A participação nesses distúrbios é vista como uma atividade divertida e de baixo risco, quase um rito de passagem. Essa atitude de tolerância encobre vários outros atos, como o uso generalizado de grafites, que nos últimos anos desfiguraram totalmente Atenas.Os tumultos não têm uma política consistente. Mas são regularmente provocados por grupos de jovens. São uma atividade recorrente que é percebida como mais ou menos normal; mal treinada e mal dirigida, ela é propensa a explosões de brutalidade. O ciclo é vicioso.Os líderes políticos, culturais e intelectuais da Grécia não têm se disposto a agir contra essa subcultura anarquista. Aliás, alguns a têm, às vezes abertamente, justificado, sustentado e, em alguns casos, endossado - especialmente partidos pequenos de esquerda, mas também jornais tradicionais de centro-esquerda.Esses tumultos estão nitidamente solapando um governo já fraco. O Partido Socialista, de oposição, já está pedindo sua renúncia. Mas o problema não desaparecerá com o atual governo. As oportunidades para novos distúrbios sempre se apresentarão. Enfrentar esse problema requer nada menos que uma profunda transformação cultural da cúpula. *Stathis N. Kalyvas é professor de ciência política na Universidade de Yale, e autor de ?The Logic of Violence in Civil War?

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