Anatomia do Serviço Secreto dos EUA

Hipóteses e mitos cercam a agência que cuida da segurança do presidente americano após algumas falhas graves

MARC, AMBINDER, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2014 | 02h03

Nos últimos cinco anos, o Serviço Secreto americano inadvertidamente deixou pessoas não convidadas entrarem num jantar de Estado, despediu dez agentes por terem contratado prostitutas, afastou especialistas de suas funções por embriaguez durante viagens do presidente ao exterior, foi informado pelo pessoal da manutenção que balas atingiram a Casa Branca, não conseguiu capturar o indivíduo que saltou o muro e perambulou pela mansão do Executivo, além de ter permitido que um segurança particular armado e com passado criminoso utilizasse o mesmo elevador onde estava Barack Obama.

Vamos separar os fatos da ficção sobre a agência de segurança. A contratação e os critérios de treinamento do Serviço Secreto não têm sido rigorosos como deveriam? Rich Sataropoli, que integrou a equipe de segurança do ex-presidente George W. Bush, atribuiu as recentes falhas na segurança a anos de práticas com base nas quais a agência contratou "pessoas simpáticas".

"Temos contratado pessoas que têm medo de colocar as mãos em gente, que são enormemente constrangidas pelo governo e estão mais preocupadas em operar na burocracia", disse.

Para agentes veteranos como Staropoli, essa filosofia nas fileiras do Serviço Secreto compromete a missão de proteger o presidente, sua família, candidatos e outros dignatários.

Até muito recentemente, os recrutadores não buscavam candidatos além das chefaturas de polícia e do Exército. Durante o mandato de dois diretores - Ralph Basham (2003 a 2006) e Mark Sullivan (2006 a 2013), o Serviço Secreto começou a contratar não só pessoas que conseguiam atender às demandas físicas do cargo, mas também quem poderia resolver, por exemplo, como proteger elevadores.

Basham e Sullivan contrataram pessoas com conhecimentos de artes e programação de computador. No entanto, o programa de treinamento dos agentes, similar ao treinamento básico dos fuzileiros navais, está rigoroso como nunca.

No que se refere às decisões na área da segurança, o Serviço Secreto está acima da Casa Branca? Por lei, sim. De fato, nem tanto. De acordo com seu estatuto, o Serviço Secreto deve proteger os 7,3 hectares de terreno onde se situa a Casa Branca. Ele divide a propriedade com diversas entidades, incluindo o escritório de despachos do presidente, o gabinete do Exército, a equipe encarregada da manutenção e membros credenciados da mídia.

O Serviço Secreto tem autoridade legal para adotar rapidamente decisões sem consulta, mas tem de trabalhar em harmonia com os demais setores, e ceder algumas vezes para conseguir mais do que deseja.

As normas de segurança são prioritárias. É o caso, por exemplo, das "caixas de alarme" dentro do complexo da Casa Branca. Pelo menos uma delas soou muito baixo na noite de 19 de setembro, quando um veterano do Exército de 42 anos pulou a cerca e invadiu.

As caixas de alarme são uma proteção da proteção. Se os dois sistemas principais - comunicação por rádio e sistema de alarme individual - falharem, as caixas de alarme alertam os agentes no caso de invasores.

Para ter menos atrito com os demais grupos dentro da Casa Branca, o Serviço Secreto pode se mostrar muito conciliador e, talvez nesse caso, ele tenha sido: uma jornalista do Washington Post, Carol Leonnig, descobriu que as caixas de alarme foram silenciadas atendendo aos guias que trabalham na Casa Branca, cujo escritório fica próximo da porta de entrada, que se queixaram de que eram "muito barulhentas".

Devemos esperar que a agência adapte seus métodos de proteção ao desejo dos seus protegidos até um certo nível e o Congresso deve assegurar os recursos financeiros para isso. Durante as campanhas eleitorais, por exemplo, o Serviço Secreto evita "demonstrações de força" da segurança porque os candidatos querem se mostrar mais acessíveis para os eleitores e admiradores. Isso significa mobilizar equipes de agentes especializados em locais não visíveis.

O Serviço Secreto oferece a Obama uma proteção menos rigorosa do que a que deu para George W. Bush? "Tenho ouvido há algum tempo que o Serviço Secreto está tentando expor o presidente. Ouve-se muito esse boato", foi o que disse ao New York Times o deputado Emanuel Cleaver, de Missouri.

Esta história é particularmente perigosa porque tem a ver com questões persistentes sobre como os outros tratam Obama. Os brancos, dizem, não querem proteger um presidente negro com o mesmo rigor.

É difícil refutar porque, à primeira vista, seria necessário inspecionar as mentes dos agentes que garantem a segurança do presidente. No entanto, é bom observar que ocorreram falhas atrozes de segurança durante as presidências de Bill Clinton e George W. Bush.

Um homem derrubou um avião roubado na Casa Branca em 1994. Outro disparou uma arma automática contra a cerca do gramado da Casa Branca no mesmo ano. Bush quase foi atingido na cabeça por sapatos atirados contra ele durante uma coletiva de imprensa no Iraque, em 2008.

Em 2005, durante discurso em Tbilisi, alguém da multidão lançou uma granada, que não explodiu, contra Bush e o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili. O Serviço Secreto foi duramente criticado após o incidente e reviu seus procedimentos.

Outra maneira de refutar esse mito seria comparar o tamanho e os recursos das equipes que protegem os presidentes durante gestões diferentes. O Serviço Secreto não divulga informações sobre seus métodos de proteção. A partir das minhas próprias observações, contudo, o cordão de segurança de Obama é tão apertado quanto o de Bush. E o de Bush era ainda mais conciso do que o de Clinton.

Sexismo. Outra hipóteses que circula como rumor: Julia Pierson foi nomeada diretora do Serviço Secreto porque é mulher. No programa Morning Joe, da MSNBC, no início do mês, Mika Brzezinski perguntou se Julia havia sido nomeada porque era mulher. "Quero saber por que ela assumiu esse cargo, sendo a primeira mulher a dirigir a agência, e quero saber porque ela ainda está lá."

Durante 30 anos, Julia Pierson foi uma agente dedicada e talentosa do Serviço Secreto. Sob muitos aspectos, ela está tão qualificada para a função quanto qualquer um dos quatro homens que Obama também cogitava para o posto.

Ela não era a favorita do presidente. Ele preferia David O'Connor. Mas, no final, o descartou porque a oposição começou a espalhar rumores sobre seu escolhido na mídia. Se o favorito de Obama era um homem branco, parece que a política de gênero não foi uma prioridade ao tomar a decisão.

Não há dúvida de que Julia Pierson enfrentou os mesmos desafios que um homem enfrentaria nessa função. Se o Serviço Secreto é de algum modo similar a qualquer organização dominada por homens, tudo o que ela decidiu, desde suas iniciativas de reforma até as sessões de informação, foi recebido com ceticismo ainda maior. Vários agentes me disseram que ela não inspirava confiança porque as pessoas achavam que ela havia sido escolhida por ser mulher.

A quinta e última hipótese: o Serviço Secreto reprime os informantes. Durante audiência sobre as recentes falhas da segurança, membros do Congresso citaram informantes da agência que não se sentiam tranquilos em relatar suas preocupações internamente. De acordo com Carol Leonnig, várias fontes a procuraram porque sabiam que o Serviço Secreto não ouviria ou toleraria suas queixas.

Como pelo menos três agentes do alto escalão e assessores do Congresso ressentidos com Julia Pierson se queixaram diretamente a mim sobre decisões que ela adotou, acho que pelo menos alguns dos vazamentos para a mídia refletiram um ressentimento pessoal além de uma preocupação real.

Críticas. No entanto, está claro também que aqueles que trabalham no Serviço Secreto acham que a agência está na direção errada. Se existe uma percepção de que os agentes não podem se manifestar sobre problemas, o próximo diretor precisa tornar esta questão prioritária.

Infelizmente, como não existem normas disciplinares claras, alguns agentes sempre acharão que outros estão fazendo o que não devem. No entanto, quando funcionários e agentes sentirem que podem chamar a atenção da direção para algum problema sem ser punidos, eles estarão menos dispostos a passar a informação para outros. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

FOI CORRESPONDENTE NA CASA BRANCA DO 'NATIONAL JOURNAL' E COAUTOR DO LIVRO 'THE

COMMAND: DEEP INSIDE THE PRESIDENT'S SECRET ARMY'

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