Andrômeda está chegando!

Seremos atingidos por outro planeta? Quando vamos parar de cantar esse blues apocalíptico?

É COLUNISTA, MAUREEN, DOWD, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, MAUREEN, DOWD, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h07

Desenvolvi recentemente um caso debilitante de cosmofobia. A verdade está lá fora, sem dúvida. Mas lá fora há também uma porção de outras coisas assustadoras e, potencialmente, fatais.

Astrônomos perturbados dizem que o medo do universo tem aumentado na última década. Estou preocupada com aquele par de pequenos asteroides que passaram perto da Terra semana passada, com os dois fortes terremotos ocorridos na Itália e com a contagem regressiva para o dia do juízo final, em 21 de dezembro, de acordo com a suposta profecia do calendário maia.

Será que o Planeta X, também conhecido como Nibiru, vai se chocar com a Terra antes do Natal? Será que uma erupção solar vai causar a inversão magnética entre Polo Norte e Polo Sul? Será que um buraco negro vai nos engolir?

Parece que teremos a primavera mais quente de todos os tempos, o calor do 4 de Julho já no Dia dos Veteranos, como disse o apresentador do Weather Channel Jim Cantore. O calor tem sido tanto, com muitas pessoas recebendo tratamento para a insolação, que a situação lembra aquele episódio de Além da Imaginação no qual a Terra escapa da própria órbita e começa a se aproximar do Sol, e todos estão morrendo de calor.

(Mas descobrimos que tudo não passa de um sonho; a Terra está na verdade se afastando do Sol, e todos estão morrendo de frio.) Talvez essa minha inquietação escatológica tenha começado com Melancolia, a estranha e maravilhosa meditação de Lars von Trier envolvendo a aniquilação da Terra por um planeta que passa perto demais dela. Ou ao ver o trailer de Procura-se um amigo para o fim do mundo, comédia romântica estrelada por Steve Carell e Keira Knightley que se passa no fim dos tempos.

Mas meu medo do cataclismo aumentou muito quando li um livro que será lançado no mês que vem, intitulado The Age of Miracles (algo como A era dos milagres), romance de estreia de Karen Thompson Walker que nos faz olhar ao redor com mais cautela quando andamos pela rua. (O livro de Karen, um dos três romances apocalípticos que a editora Random House pretende lançar em meados do ano, já recebeu propostas de Hollywood.)

Karen escreveu um terno romance de amadurecimento que se desenrola no tóxico contexto do fim do mundo. A rotação da Terra diminui de velocidade, e os dias e as noites se arrastam, chegando à duração de semanas inteiras. O campo magnético que protege a Terra da radiação solar é desfeito, a gravidade vai para o brejo e a temperatura oscila entre o calor extremo e o frio extremo.

A ex-editora literária teve a inspiração para o livro depois de ler que o terremoto de 2004 na Indonésia foi tão forte a ponto de ter alterado o formato da Terra, acelerando a rotação do planeta e eliminando 3 microssegundos de cada dia. (O mesmo ocorreu com o terremoto do ano passado no Japão.

Quando as placas tectônicas se moveram, parte do Japão realmente avançou 4m em direção aos Estados Unidos.)

Karen diz que conversou com um estudante de pós-graduação em astrofísica para conferir mais verossimilhança ao livro. "Supus, por exemplo, que uma rotação mais lenta faria com que a gravidade parecesse mais fraca, mas estava enganada", disse ela num e-mail. "A rotação da Terra é responsável por uma força contra gravitacional (centrífuga) de baixíssima intensidade. Isso significa que, se a rotação perdesse velocidade, a gravidade na Terra se tornaria minimamente mais forte.

Talvez as bolas de beisebol não voassem tão longe quando arremessadas, e os pássaros e aviões seriam puxados na direção da Terra com um pouco mais de força." Sentindo-me um pouco nervosa, liguei para David Morrison, cientista sênior do Centro de Pesquisas Ames, da Nasa, na Califórnia, que responde às perguntas enviadas pelo público via internet para o site Pergunte a um astrobiólogo.

Mesmo antes de os arqueólogos terem descoberto um calendário maia mais longo na Guatemala no começo do mês, derrubando a ideia de que o mundo vai acabar em dezembro, Morrison achava que a profecia maia era besteira.

Fraude. Ele disse que pessoas interessadas em ganhar dinheiro estão bombando a fraude. "O pior é que eles conseguem assustar de verdade as crianças, e é cruel inventar histórias para amedrontar crianças", disse ele.

"Recebo pelo menos um e-mail por dia de uma criança dizendo que não consegue dormir à noite. Algumas ameaçam se suicidar. Soube de dois casais que falaram em matar os filhos e a si mesmos antes da data, e uma menina se enforcou na Grã-Bretanha no semestre passado por causa da preocupação com 2012."

Ele me garantiu que as premissas do romance de Karen e do episódio de Além da Imaginação jamais poderiam ocorrer. "Podemos provocar efeitos horríveis no planeta por meio do aquecimento global ou de uma guerra nuclear", disse ele. "Mas não podemos mudar a distância da Terra em relação ao Sol nem a velocidade de rotação do planeta."

Reparando no crescente número de casos de cosmofobia, Morrison perguntou, impaciente: "Por que nossa sociedade dedica tanta atenção aos desastres potenciais?" Justamente quando eu estava começando a me acalmar, ele mencionou que, em 2 bilhões de anos, a galáxia de Andrômeda vai se chocar com a Via Láctea.

Ao ver meu nervosismo diante desse enigma de Andrômeda, ele explicou que o choque não passaria de duas imensas esferas compostas por estrelas e muito espaço vazio passando uma pela outra no decorrer de milhões de anos, sem provocar grandes males.

"Teremos apenas o dobro de estrelas", disse ele. "O fim do mundo é, na verdade, um conceito tolo. O mundo está aí há 4 bilhões de anos.

Consigo imaginar o ser humano acabando consigo mesmo enquanto civilização, mas o planeta não se importaria com isso." Como ele pode ter tanta certeza? "Sou doutor em astronomia formado em Harvard", respondeu ele. Então, tá. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.