Ronen Zvulun/Reuters
Ronen Zvulun/Reuters

Anexar ou não a Cisjordânia depende mais de Trump

Não está claro se Netanyahu vai seguir adiante com ameaça, pois ele já provou ser defensor do status quo

Shalom Lipner / WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2019 | 05h00

O premiê Binyamin “Bibi” Netanyahu e seu desafiante Benny Gantz, ex-chefe de Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, socaram um ao outro incessantemente numa corrida que parecia desprovida de debate substantivo. Mas o quadro mudou na noite de sábado quando Netanyahu declarou que buscaria a anexação da Cisjordânia. 

Isso dependeria, em grande medida, do presidente Donald Trump. O reconhecimento dos EUA do domínio israelense sobre as Colinas do Golan, o anúncio de que o Brasil abrirá um escritório comercial em Jerusalém e a recuperação do corpo de um soldado israelense morto no Líbano, depois de 37 anos – tudo nas últimas duas semanas – ressaltaram o status de Netanyahu como o mais proeminente estadista israelense.

Sua promessa de tornar oficial e permanente o domínio de Israel sobre partes da Cisjordânia vem agora como um complemento. A anexação é o Santo Graal para grandes segmentos da direita israelense – os parceiros preferenciais da coalizão de Bibi. 

Mas não está claro se ele realmente vai seguir adiante com isso. Na verdade, Netanyahu provou coerentemente – e contrário ao senso comum – ser um defensor do status quo e avesso ao risco.

O flanco mais à direita do campo ideológico de Netanyahu criticou-o amargamente por implementar o que encaram como políticas de esquerda. Ele foi criticado por decisões como aprovar a transferência de fundos para a Faixa de Gaza, controlada pelo Hamas, atrasar a demolição ordenada pelo tribunal de um polêmico acampamento beduíno e não acelerar construções israelenses em áreas estratégicas da Cisjordânia.

Os fanáticos de direita de Netanyahu estão consumidos pelo medo de que ele possa até mesmo “capitular” ante Trump, adotando um projeto de paz ainda não divulgado, que implicaria em concessões que eles consideram inaceitáveis.

Netanyahu demonstrou uma firme contenção em responder aos ataques de foguetes de Gaza no coração de Israel – para grande desgosto da maioria dos israelenses que acredita que Israel deveria ter respondido com mais rigor. Ele também foi cauteloso ao administrar as relações em expansão do país no mundo árabe, avançando em ritmo moderado. 

O papel dos EUA é fundamental para o que virá a seguir. Como uma democracia robusta, Israel não tem falta de agências independentes. Mas quando se trata de grandes mudanças na política, os líderes israelenses sempre verificaram para que lado os ventos sopravam em Washington.

Hoje, os EUA estão mais uma vez como facilitadores – ou não – dos projetos territoriais de Israel. As raízes do discurso de anexação de sábado são anteriores à presidência Trump: a segurança e os argumentos religiosos que advogam para Israel a retenção de toda ou parte da Judeia e Samaria bíblicas são encontradas após a Guerra dos Seis Dias de 1967, quando Israel capturou o território.

Mas a proclamação de Trump de que “as Colinas do Golan fazem parte do Estado de Israel” faz com que o compromisso de Netanyahu anunciado no sábado pareça como algo que ele poderia seguir com credibilidade. Trump deu aos israelenses uma razão genuína para acreditar que a Cisjordânia pode estar em jogo, como jamais esteve. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

É MEMBRO SÊNIOR NÃO RESIDENTE NO ATLANTIC COUNCIL. DE 1990 A 2016, SERVIU A SETE PREMIÊS ISRAELENSES CONSECUTIVOS

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