ANEXAR PAÍSES, DESTRUIR LARES

Casal de Simferopol deve se separar; ela vai a Kiev, ele fica para combater o 'invasor' russo

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL , SIMFEROPOL / CRIMEIA, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2014 | 02h03

Katya é ucraniana, Dmitri, russo. Até 24 de fevereiro, o casal havia encontrado por 10 anos a harmonia vivendo sob o mesmo teto em Simferopol, capital da Crimeia, cidade de 320 mil habitantes no centro da península no Mar Negro. Com a ocupação do território por tropas enviadas pela Rússia, suas vidas sofreram uma transformação brutal. Ela partiu para Kiev, ele permanecerá. Quer lutar contra o "invasor".

Desde que milhares de jovens estudantes se lançaram ao movimento de contestação ao então presidente, Viktor Yanukovich, na Praça da Independência, em Kiev, em novembro de 2013, nada mais foi igual na vida de ucranianos e russos do país. Ao longo de duas semanas, o Estado ouviu depoimentos de estudantes dispostos a abandonar suas faculdades, de militares perdidos sobre o que farão de suas vidas e de trabalhadores comuns assustados com o retorno da instabilidade que viveram nos anos 90 e com a incerteza sobre seus empregos e finanças.

Katya e Dmitri são o exemplo concreto do impacto que a crise política da Ucrânia vem causando sobre cidadãos comuns, em especial entre os moradores da Crimeia. Katya, de 35 anos, uma intérprete de inglês impecável, e Dmitri, de 45, ex-militar das Forças Armadas da União Soviética e hoje programador de informático, começaram a se separar com o início do movimento EuroMaidan, em Kiev. Casados havia 10 anos, viviam sob o mesmo teto com a mãe de Dmitri, nascida na Rússia.

Na eclosão dos protestos na Praça da Independência, Katya estava do outro lado da fronteira, cuidando de sua mãe em território russo. Lá diz ter presenciado a onda nacionalista entre os russos e entendeu que não queria viver no país de Vladimir Putin.

"Nunca fui muito de política, mas quando tudo estourou me descobri uma patriota ucraniana", conta a intérprete. "Cresci na Rússia, onde vivi muitos anos. Sei que tudo está ficando cada vez pior, que a pressão está ficando mais e mais dura. Por isso estou certa de que não quero viver na Crimeia se ela se tornar Rússia."

Em Simferopol, Dmitri acompanhava os desdobramentos com preocupação. Filho de russos, nascido na Rússia e ex-soldado soviético, via com temor a invasão da Crimeia, a península para onde foi levado ainda bebê, e que considera sua verdadeira terra natal. "Fui trazido para aqui com um 1 ano pela minha mãe, que tinha se divorciado de meu pai. Hoje sou cidadão ucraniano, não só no meu passaporte, mas no meu espírito", garante. "Nada vai me forçar a deixar este lugar. Nem a invasão."

As divergências sobre seu futuro se acentuaram com a tomada do Parlamento por tropas russas e milicianos cossacos, que assumiram em questão de horas o controle não só de Simferopol e Sebastopol, mas de toda a península. Katya decidiu que era hora de partir. "A decisão foi muito, muito difícil, mas agora está tomada. Vendo homens armados com metralhadoras fazendo barreiras nas estradas e ao mesmo tempo vendo as pessoas comemorando nas ruas com bandeiras da Rússia no dia do referendo, entendi que não há nada que possa fazer aqui", diz a intérprete, hoje militante pró-Ucrânia e pró-Europa. "Para mim está ficando muito difícil ficar calada. Em algum momento, em breve, não vou mais resistir. E os russos daqui não conseguem ouvir outras opiniões que não as suas."

Acordo. Neste o ponto, Dmitri e Katya concordam. "É uma questão de segurança. Eu estou pronto para enfrentar todo o tempo de ocupação, mas sei que para Kathia será perigoso", diz ele, que teme pela integridade de sua mulher em um território minado de milicianos armados.

Embora concorde sobre a segurança da mulher, Dmitri opta por um caminho diferente. "Minha terra é aqui, e quero um futuro melhor para a Crimeia", diz ele, propondo-se a brigar pela libertação da península. "Para mim, as tropas russas são invasores, são tropas de ocupação. Vou lutar para expulsá-los daqui e para tornar essa terra mais livre."

Katya partiu na semana passada de avião para Moscou - um dos poucos destinos possíveis a partir do aeroporto local. De lá rumaria para Kiev, também de avião. Diante da incerteza sobre seu futuro, ela revela confiança. Conta com os amigos, militantes pró-Europa, para encontrar um emprego, nas próximas duas semanas que lhe permita receber um salário, e sobreviver na capital.

Dmitri é mais pessimista. Não afasta o risco de uma guerra entre a Ucrânia e a Rússia por outros territórios e crê que seu país mergulhará em uma crise econômica profunda. "Não imaginávamos que esses eventos aconteceriam assim, em tão pouco tempo. Estamos fazendo o que podemos para enfrentar essa situação", assegura, fazendo uma previsão sombria. "Não é impossível que haja uma guerra e, nesse caso, será muito difícil viajar de um país ao outro", admite. "Então será impossível nos revermos."

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