Roberto Monaldo/EFE/EPA
Roberto Monaldo/EFE/EPA

Anfitrião do G-20, Mario Draghi conseguiu dar paz à tumultuada política italiana

Arrancado de uma semiaposentadoria para virar primeiro-ministro, ex-presidente do Banco Central conta com amplo apoio de partidos

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2021 | 14h00

ROMA — Até nove meses atrás, a vida de Mario Draghi era muito mais sossegada do que agora. Ele passava temporadas em sua casa de campo na Úmbria, jogava golfe com o filho. Seu legado, construído como o presidente de banco central que ajudou a resgatar a zona do euro da crise, já estava assegurado. 

Mas com a Itália nas profundezas da pandemia e em busca de um primeiro-ministro, Draghi recebeu um convite espontâneo do presidente do país.“E ele não podia recusar”, diz Giovanni Orsina, diretor da faculdade de gestão pública da Universidade Luiss Guido Carli, em Roma. 

Isso explica como Draghi, de 74 anos - arrancado de uma semiaposentadoria para virar primeiro-ministro - encontra-se agora novamente na arena internacional, recebendo em seu país uma cúpula do G-20 em que os temas em jogo são, no mínimo, tão complicados quanto qualquer outro assunto que ele tenha lidado no passado.

A cúpula de dois dias, que tratará principalmente de meio ambiente e pandemia, colocará em teste quão significativamente as potências industriais do mundo são capazes de aliviar a desigualdade da vacina e acelerar a redução das emissões de gases de efeito estufa. Especialmente a respeito do meio ambiente, campo em que os compromissos dos países muitas vezes ficam aquém do sugerido pela ciência como necessário, há um risco considerável de fracasso. 

Mas ainda que Draghi tenha influência limitada sobre os outros 19 países, ele já provou seu valor de outras maneiras, deixando sua marca no país que receberá os outros líderes neste fim de semana. Especialistas em Itália falam de Draghi com empolgação, descrevendo-o como um primeiro-ministro excepcional, que conta com um grau de credibilidade que faltou aos seus antecessores. Até agora, afirmam os analistas, ele tem se mostrado disposto a tomar decisões duras --  por vezes unilaterais -- sem se importar com a popularidade das medidas. E, apesar disso, ele tem se provado popular, com um índice de aprovação de 63%, mais alto do que a maioria dos outros líderes democráticos em visita a Roma. 

“Mario Draghi é como uma Ferrari”, afirmou Giampiero Massolo, presidente do Instituto Italiano de Estudos em Política Internacional, que também atua como diplomata italiano. “Ele está acelerando a Itália.”

Por ter sido escolhido a dedo pelo chefe de Estado italiano, Draghi pode se dar a um luxo que dificilmente outros líderes seriam capazes de replicar: não ter de escolher entre campos políticos. A mídia italiana está debatendo até agora a respeito de Draghi parecer mais de direita ou de esquerda. Depois de ele ser apontado pelo presidente, os vários e fragmentados partidos que detêm assentos no Parlamento tiveram de decidir se o apoiariam ou não; todos os partidos, exceto um, fizeram a mesma escolha, e Draghi conta agora com amplo apoio, da direita à esquerda. 

“Ele foi capaz de reunir o apoio dos partidos de maneira notável”, afirmou Nathalie Tocci, diretora do Instituto Italiano de Assuntos Internacionais. Ela afirmou que Draghi deixa os partidos “gritarem e espernearem” em relação a alguns temas domésticos, mas quando se trata do coronavírus, da economia ou das relações com a Europa, “a coisa é diferente”.

Muitas de suas mais cruciais decisões foram relacionadas à pandemia e à recuperação econômica. Semanas após sua posse, Draghi deu novo vigor à campanha de vacinação e cessou a prática de priorizar trabalhadores jovens para imunização em vez dos idosos. Posteriormente, ele determinou a revisão da estratégia - idealizada pelo governo anterior - para aplicar o massivo fluxo europeu de financiamento para recuperação da pandemia; Draghi considerou que faltavam detalhamentos na versão anterior.

Mas enquanto Draghi foi mudando o país de maneiras rapidamente visíveis, nenhuma decisão foi mais significativa do que sua decisão de pressionar não vacinados a se vacinar. No verão, Draghi tornou o chamado Passe Verde obrigatório para trabalhadores dos setores público e privado, o que significou que, para receber seus salários, os italianos teriam de optar entre vacinar-se ou testar-se para o coronavírus a cada 48 horas. Nenhum outro país europeu foi tão longe nesse sentido.

Entre os 27 países-membros da UE, a Itália registra agora o terceiro índice mais baixo de casos de covid e a quarta taxa de vacinação mais alta. O contraste é ainda mais pronunciado em relação ao Reino Unido, país que sediará a COP26, para onde muitos líderes viajarão depois da Itália. Ao longo da semana passada, o Reino Unido registrou uma média diária de 44 mil novos casos de covid e 145 mortes; a Itália tem registrado menos de 4 mil novos casos por dia e 38 mortes. 

Em uma reunião do Conselho Europeu, na semana passada, Draghi descreveu a campanha de vacinação na Itália como um “esforço extraordinário”.

Draghi chegou ao cargo já como um integrante consumado da classe institucional europeia e ajustou a política externa italiana. Enquanto os governos recentes da Itália, sob comando do ex-primeiro-ministro Giuseppe Conte, eram solícitos em relação a Rússia e China, Draghi deixou clara a participação italiana na “aliança Atlântica” e afastou seu país do compromisso de integrar a Iniciativa Cinturão e Rota, pela qual Pequim investe na infraestrutura de outros países. Draghi se reunirá com o presidente americano, Joe Biden, na sexta-feira, mesmo dia em que o americano se reunirá com o papa Francisco e o presidente francês, Emmanuel Macron.

“Foi uma coincidência fortuita que no mesmo ano que a Itália sedia a cúpula do G-20 e ocupa a vice-presidência da COP tenhamos um primeiro-ministro como Draghi", afirmou Ferruccio De Bortoli, ex-editor-chefe do jornal Corriere della Sera. Ele comparou Draghi a Conte, afirmando que Conte, antes de virar primeiro-ministro, “nunca em sua vida havia participado de uma reunião internacional”. 

Muitas personalidades políticas, porém, preocupam-se com a possibilidade da Itália estar vivendo um período de realidade em suspensão. Um momento complicado, que poderia influenciar o futuro de Draghi, chegará daqui a apenas três meses, quando o mandato de sete anos do presidente Sergio Mattarella chegar ao fim. Ainda que os presidentes tenham normalmente uma função cerimonial no país, o cargo lhes concede grande influência em momentos de crise política. 

O presidente - escolhido pelos legisladores - também sustenta talvez o título mais prestigiado no país. Se Draghi não fosse primeiro-ministro, seria um candidato óbvio à presidência. E mesmo como primeiro-ministro, ele ainda pode ser nomeado presidente, mas isso faria com que a Itália novamente tivesse de buscar um líder para o dia a dia. 

“Ninguém sabe o que vai acontecer em janeiro”, afirmou Orsina. “É muito difícil prever.” 

Mesmo se Draghi continuar no cargo, ele será obrigado a convocar eleições em 2023. Na semana passada, Draghi enfrentou brigas particularmente desgastantes com sindicatos a respeito de revisões de aposentadorias, e alguns analistas acham inevitável que a confiança política que de que Draghi desfruta se deteriore.

“Luas de mel”, afirmou Tocci, “não duram para sempre”. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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