Angelina, George, Ben e Mia: liderança moral

Muitos astros têm mostrado mais compromisso com causas humanitárias que os políticos de Washington

É COLUNISTA, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, NICHOLAS D., KRISTOF, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, NICHOLAS D., KRISTOF, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2012 | 03h04

Eis um paradoxo: hoje em dia, estamos encontrando lideranças autênticas não em nossos líderes nominais em Washington, mas em figuras não eleitas (e geralmente inelegíveis) a quem gostamos de depreciar como narcisistas autocomplacentes.

O Congresso está tão paralisado e imaturo, até desleixado, que nós, jornalistas, às vezes saímos de uma entrevista coletiva de um político sentindo a necessidade urgente de um banho. Mas vejam os estudantes colegiais e universitários. Claro, muitos ainda vivem por uma festa, mas um número crescente não tem tempo para a cerveja, pois está ocupado demais tutelando prisioneiros, combatendo o tráfico sexual ou construindo poços na África.

Mais espantoso ainda, agora podemos buscar um líder moral entre as - segurem-se - personalidades mais charmosas de Hollywood. Eu sei, eu sei. O que podemos esperar de celebridades é, sobretudo, vidas sexuais escandalosas e comportamento excêntrico, e algumas correspondem. Mas enquanto nossos "líderes" aviltam cada vez mais o debate nacional, símbolos sexuais o elevam.

Considerem Angelina Jolie, que está fazendo sua estreia como diretora e escritora com o doloroso novo filme, In the Land of Blood and Honey (Na terra de sangue e mel, em tradução literal). Trata-se de uma história de amor bósnia num contexto de genocídio, e ele ilumina a capacidade humana tanto de amar quanto de matar.

Devo reconhecer que regularmente aborreço meus filhos com minha ignorância sobre cultura popular. A primeira vez que encontrei Angelina Jolie, quatro anos atrás, fui levado até um sofá onde três mulheres estavam sentadas - e percebi, para meu horror, que não tinha a menor ideia de quem ela era. Ela me salvou apresentando-se. (Talvez eu devesse prevenir sobre um conflito aqui. Jolie fez uma sinopse de um livro que minha mulher e eu escrevemos sobre a capacitação de mulheres. Melhor ainda, ela segurou nosso livro, a capa perfeitamente levantada para as câmeras, como um escudo quando os paparazzi a estavam acossando).

O novo filme de Jolie não faz concessões a ninguém. Para começar, ela não está nele. O elenco é formado por desconhecidos dos Bálcãs, falando línguas estrangeiras com legendas. Quando Jolie escreveu o roteiro e se propôs a filmá-lo, assim ela disse, todos acharam que havia enlouquecido.

O filme retrata o romance entre um homem servo-bósnio e uma mulher muçulmana bósnia. Quando a guerra bósnia começa, ele se torna oficial de um Exército genocida e ela, uma sobrevivente em um dos campos de estupro do Exército. O casal se reúne, mas ela é tanto sua prisioneira quanto sua amada. O oficial do Exército me lembra os criminosos de guerra a quem entrevistei: um sujeito bom e decente quando não está cometendo crimes contra a humanidade.

"Como pessoas chegam ao ponto de assassinar a avó na porta ao lado. Como isso acontece? Se pudermos começar a compreendê-lo, talvez possamos imaginar como enfrentar os sinais mais cedo", disse Jolie. Ela também quer que os espectadores meditem sobre a intervenção humanitária e o que pode ser feito para impedir atrocidades em massa. "Eu esperava que as pessoas assistissem ao filme e pensassem 'por que não acabamos com isso?'", disse ela.

Desconfiança. No início eu era extremamente desconfiado de celebridades se imiscuindo em causas humanitárias. Quando Mia Farrow questionou-me sobre ir a Darfur, eu rejeitei sumariamente na presunção de que ela não conseguiria aguentar. Aí ela viajou para a região por conta própria e eu comecei a trombar com ela de todo modo.

Uma vez Farrow consultou-me sobre seu plano de comprar um jumento e cruzar sozinha um deserto ocupado por milícias assassinas. Ela planejava viajar sem sequer uma tenda, com apenas uma corda para cercá-la enquanto dormia na areia na suposição de que cobras e escorpiões fugiriam da corda. Farrow tornou-se uma amiga depois disso, mas agora eu temo viajar com ela. Eu poderia não aguentar.

Da mesma forma, a guerra no Congo é a mais letal desde a 2.ª Guerra, mas ela não tem sido muito coberta por muitas organizações noticiosas. Uma pessoa que visitei seguidamente é Ben Affleck. Ele se tornou um especialista em Congo, e pretender retornar neste mês ao país. Ou pensem em Sean Penn e Olivia Wilde, que mostraram um compromisso mais duradouro com o Haiti do que a maioria das organizações noticiosas.

Vejam, como jornalista, tenho orgulho da minha profissão. No entanto, está claro também que pressões comerciais estão impelindo algumas organizações noticiosas, a televisão em particular, a abandonar o barco. Em vez de cobrir o Congo, é mais barato e mais fácil pôr um democrata e um republicano num estúdio e fazer um gritar com o outro.

Francamente, é simplesmente humilhante quando organizações noticiosas cobrem George Clooney (meu companheiro de viagem numa visita a Darfur) mais atentamente quando ele rompe com uma namorada do que quando viaja ao Sudão e usa fotos de satélite para captar o governo sudanês cometendo atrocidades em massa.

Portanto, aí vão meus votos para o novo ano. Que nossos "líderes" em Washington façam uma pausa em seu narcisismo arrogante e mostrem um mínimo da seriedade e propósito moral de, sim, celebridades. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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