Angola anuncia morte do líder dos rebeldes da Unita

O Exército de Angola matou Jonas Savimbi, por 30 anos o líder do grupo rebelde Unita. O Exército e o governo anunciaram num comunicado conjunto que Savimbi morreu em confrontos na província de Moxico, sudeste de Angola, por volta das 15 horas (horário local). Não houve imediata confirmação da notícia por fontes independentes. Aldemiro Vaz Conceição, porta-voz do presidente José Eduardo dos Santos, disse que o Exército mantinha o corpo de Savimbi em Moxico. "Vamos divulgar imagens do corpo pela televisão", afirmou Aldemiro por telefone à Associated Press. Entretanto, as imagens só devem chegar aos estúdios de tevê em Luanda, na capital, neste sábado, devido ao mau tempo que tem prejudicado os vôos.Num comunicado separado, a polícia pediu à população civil para manter a calma. Oficiais da Unita (União Nacional pela Independência Total de Angola), que estão escondidos em florestas angolanas, não puderam ser contatados.Em Luanda, integrantes da guarda presidencial fizeram disparos de armas automáticas para o ar em comemoração. Milhares de tropas de elite guardam o palácio presidencial nos arredores de Luanda. O governo afirmou que irá agora buscar o fim da guerra civil em Angola, que tem sido travada pelos dois lados durante a maior parte dos últimos 27 anos, e anunciou que estava pronto para executar um acordo de paz de 1994 que previa eleições democráticas periódicas.Estima-se que mais de 500.000 pessoas tenham morrido durante a guerra civil. Cerca de 4 milhões - aproximadamente um terço da população - foram forçadas a abandonar as casas devido aos combates.Não está claro se alguém da hierarquia da Unita conseguirá substituir Savimbi, que liderava o grupo com mão-de-ferro desde que ele foi fundado em 1966 para combater a administração colonial portuguesa. Acredita-se que o vice-presidente da Unita, Antônio Dembo, assim como Paulo Lukamba Gato, assessor próximo de Savimbi, estejam vivos e escondidos no interior de Angola.A Unita dispõe de estoques de diamante, vendidos no mercado negro internacional, o que permite que o grupo continue lutando apesar de sanções das Nações Unidas ao comércio de petróleo e armas. O governo financia a guerra com a produção de petróleo. Grupos de direitos humanos acusam os dois lados de cometerem atrocidades.O Exército do governo expulsou a Unita dos principais bastiões no último ano, depois do retorno da guerra civil ao país após desmoronar em 1998 um acordo de paz assinado quatro anos antes. O acordo de 1994 foi mediado pelas Nações Unidas e seguiu-se a dois outros acordos de paz anteriores que também foram desrespeitados.Savimbi, que tinha 67 anos, foi uma peça-chave na luta pelo domínio da África durante a Guerra Fria, mas acabou isolado internacionalmente ao não aceitar resultados de eleições democráticas. Dos anos 60 aos anos 80, ele foi um importante aliado dos Estados Unidos e do governo racista da África do Sul na luta contra o governo marxista em Angola. Em 1986, Savimbi foi recebido como chefe de Estado pelo então presidente Ronald Reagan na Casa Branca.Mas, depois do fim da União Soviética, o governo angolano abandonou as políticas marxistas e se aproximou dos EUA, levando companhias petrolíferas norte-americanas a investir bilhões de dólares no país. Ao rejeitar a derrota na primeiras eleições democráticas em Angola em 1992, retornando à guerra civil, Savimbi acabou sendo isolado pelas potências ocidentais que pressionavam pela democracia na África.O ex-subsecretário de Estado para Assuntos Africanos dos EUA Chester A. Crocker afirmou que Savimbi tinha "uma mente estratégica de classe mundial". "Era difícil não ser impressionado por esse angolano, que combinava qualidades de um senhor da guerra, chefe supremo, demagogo e estadista", escreveu Crocker em 1992.Nascido numa família humilde na vila de Munhango, no centro de Angola, Jonas Malheiro Savimbi era um guerrilheiro formado na universidade e que falava três línguas africanas e quatro européias. Muitos dos comandantes da Unita foram recrutados na tribo ovimbundu, de Savimbi, mas ele sempre resistiu à idéia de que a guerra civil angolana era travada entre tribos.Quando o país se tornou independente de Portugal, em 1975, o governista Movimento Popular para a Libertação de Angola, ou MPLA, reforçado por militares cubanos, lançou uma grande ofensiva, forçando a Unita de Savimbi a se embrenhar em florestas, no que ficou conhecido como "A Longa Marcha" do grupo. A Unita se reagrupou e recebeu apoio de tropas da África do Sul e ajuda secreta da CIA. Em duas décadas de guerra, Savimbi formou uma força de mais de 60.000 homens, mas nunca dispôs do poder aéreo do MPLA.

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