Angola, o país mais mortífero para crianças

Um a cada seis menores de 5 anos morre por ano, apesar da riqueza

NICHOLAS, KRISTOF, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

20 Março 2015 | 02h00

O país está repleto de petróleo, diamantes, milionários a bordo de Porsches e de criancinhas que morrem de fome. Os dados mais recentes da Unicef mostram que Angola, uma nação africana rica, mas corrupta, ocupa o primeiro lugar no mundo na taxa de mortalidade de crianças até os 5 anos.

"Mortalidade infantil" é uma frase árida, mas, nesse caso, significa crianças desnutridas, com membros semelhantes a gravetos, cabelo descolorido e pele descascada.

Aqui em Lubango, sul de Angola, ao entrar numa clínica, me deparei com uma mãe que carregava uma criancinha que parecia estar perto da morte. O menino estava inconsciente, seus olhos rodavam nas órbitas, sua pele estava fria e a respiração, ofegante; então, levei a mãe para as enfermeiras já sobrecarregadas de trabalho. A poucos metros, outra mãe começou a gritar. Seu filho desnutrido, José, acabava de morrer.

Os ocidentais, às vezes, acreditam que as pessoas que vivem em países pobres estão acostumadas à perda de um ente querido, que seu coração é calejado e sua dor é entorpecida. Ninguém que olhasse aquela mãe ao lado do filho morto poderia pensar desse modo - e seus lamentos são o coro de fundo em Angola. Aqui, uma criança em cada seis morre antes de completar 5 anos.

Essa é a única indicação do sofrimento. Em virtude da desnutrição generalizada, mais de 25% das crianças angolanas acabam definhando fisicamente, enquanto as mães correm risco de morrer de parto na proporção de 1 em cada 35.

Num hospital de Lubango, vi um menino de 7 anos, Longuti, que lutava pela vida com malária cerebral e pesava menos de 16 quilos. Sua mãe, Hilaria Elias, que já tinha perdido dois dos quatro filhos, não sabia que mosquitos são os causadores da malária. Quando Longuti ficou doente pela primeira vez, ela o levou a uma clínica, mas lá não havia nenhum remédio e não fizeram o teste da malária. Agora, Longuti está tão doente que, segundo os médicos, mesmo que sobreviva, sofreu danos cerebrais tão severos que poderá ter problemas para voltar a andar e falar.

Mas crianças como ele, que passam por um médico, são as mais afortunadas. Somente cerca de 40 a 50% da população de Angola tem acesso ao sistema de saúde, diz Samson Agbo, especialista em pediatria da Unicef.

Angola é uma nação de contradições aberrantes. O petróleo e os diamantes representam uma riqueza rara na África subsaariana e os ricos podem ser vistos nas lojas de joias e em apartamentos alugados a US$ 10 mil mensais na capital, Luanda.

Corrupção. Sob José Eduardo dos Santos, presidente corrupto e autocrático, que governa o país há 35 anos, bilhões de dólares acabam nas mãos de uma pequena elite - enquanto as crianças morrem de fome.

Santos, que graças ao petróleo mantém laços fortes e calorosos com os Estados Unidos e a Europa, paga a uma empresa de relações públicas para promover seu governo, mas ele não toma as medidas mais simples para ajudar o seu povo.

Alguns dos países mais pobres, como Mauritânia e Burkina Fasso, fortificam a farinha de trigo com micronutrientes - uma das maneiras mais baratas para salvar vidas -, mas Santos nunca tentou isso. Ele investe três vezes mais em defesa e segurança do que em saúde.

"As crianças morrem porque não há remédios", lamentou Alfred Nambua, chefe de uma aldeia em que as casas têm teto de palha, ao longo de uma estrada de terra cheia de buracos, perto da cidade de Malanje, norte do país. A aldeia não tem escola, não tem latrinas, não tem mosquiteiros sobre as camas. A única água é a de um riacho contaminado que fica a uma hora de caminhada.

"Agora aqui não tem nada", disse Nambua, de 73 anos, acrescentando que a vida era melhor antes de 1975. "No período colonial, quando fiquei doente, tinham medo que eu morresse e cuidaram muito bem de mim", afirmou, mostrando como tremia com a malária. "Agora, quando fico doente, ninguém se importa se eu morrer", acrescentou.

As estatísticas indicam que, na realidade, a mortalidade infantil de Angola está declinando, mas de uma maneira dolorosamente lenta.

"A morte neste país é uma coisa normal", disse o dr. Bimjimba Norberto que dirige uma clínica em uma favela fora da capital. Um pouco adiante da clínica, começava o funeral de Denize Angweta, um bebê de 10 meses que tinha acabado de morrer de malária.

"Se eu vivesse em outro país, ainda estaria brincando com minha filha", comentou triste o pai de Denize, Armando Metuba.

E a situação pode piorar. Com a queda dos preços do petróleo, o governo propôs o corte de 33% do orçamento da saúde para este ano.

Ajuda. Critiquei frequentemente os países ocidentais por não serem mais generosos com a ajuda. Entretanto, também é importante responsabilizar os países em desenvolvimento. Seria difícil entender por que o Ocidente deve continuar doando dinheiro a Angola e permitindo que os ricos angolanos se safem a bordo dos seus Porsches.

Um líder pode matar seu povo de várias maneiras - e, embora Santos não esteja cometendo um genocídio, ele preside a pilhagem sistemática do seu Estado e negligencia o seu povo.

Consequentemente, 150 mil crianças angolanas morrem todos os anos. O presidente Santos deve ser responsabilizado pelas mortes e reconhecer que a corrupção e a negligência extremas estão próximas do massacre. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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