Angola vive ''''milagre econômico''''

Exportações de petróleo atraem investimentos, mudam a paisagem de Luanda e fazem PIB crescer 23% em 2007

Mariana Della Barba, LUANDA, O Estadao de S.Paulo

17 de dezembro de 2007 | 00h00

O angolano Tito Luis Mendonça estudou administração em Lisboa e fez pós-graduação em comércio internacional na Universidade de Georgetown, em Washington. Em vez de trabalhar na Europa ou nos Estados Unidos, ele preferiu montar seu próprio negócio em Luanda há cinco anos. "Abri um site de busca de emprego porque percebi que, como eu, muitos angolanos queriam voltar, mas não sabiam como." Hoje, aos 31 anos, Mendonça tem dois sites, uma agência de comunicação, uma empresa de representação de produtos importados, uma casa no melhor bairro da capital angolana e outra na praia, além de um barco.A trajetória de Mendonça reflete o que ocorreu em Angola a partir de 2002: o país deixou para trás 27 anos de guerra civil e decolou rumo a um processo de reconstrução e crescimento econômico impulsionado pelas exportações de petróleo. Só este ano, o PIB deve crescer 23%. Para qualquer lado que se olhe em Luanda há guindastes, canteiros de obras e cartazes anunciando luxuosos empreendimentos imobiliários.Tudo graças à descoberta de novas reservas petrolíferas e dos preços recordes do produto. O país exportou mais de US$ 30 bilhões em 2006 e, este ano, atingiu uma produção de quase 2 milhões de barris por dia, atraindo investidores como a China. "Entre os planos para 2008 estão a construção de uma nova refinaria, em Lobito, e o início da produção da planta de liquefação de gás natural", diz Syanga Abili, diretor da estatal petrolífera angolana Sonangol.O milagre angolano pode ser visto nas ruas de Luanda, onde é comum ficar preso em engarrafamentos monstruosos. Mais impressionante que a quantidade de veículos é a qualidade - Land Rovers, jipes Toyota e outros SUVs . Fora da capital, o governo já reformou 4 mil quilômetros de estradas - mais da metade do total do país -, construiu 700 quilômetros de ferrovias e renovou quatro aeroportos. A 40 minutos do centro de Luanda (se o trânsito cooperar) está outro exemplo: o novíssimo bairro Luanda Sul, com suas ruas largas e bem asfaltadas, repleto de condomínios de luxo, onde o preço do metro quadrado chega a custar US$ 300. O projeto, que tem parceria da empreiteira brasileira Odebrecht, busca controlar a ocupação desordenada, oferecendo casas de baixo custo e longos prazos de pagamento para quem tem construções ilegais. A poucos quilômetros dali, num musseque (a favela angolana) não "integrado", uma Land Rover está estacionada na frente de um barraco de madeira. E essa talvez seja a melhor cena para retratar a nova realidade de Angola. "Não há nenhuma indicação de que a miséria esteja recuando", adverte o cientista político Nelson Pestana, da Universidade Católica da Angola. "Cerca de 70% da população vive abaixo da linha da pobreza, como em 2001, enquanto o Gini (indicador que mostra a diferença entre ricos e pobres) continua a crescer", acrescenta. SEM DIVERSIFICAÇÃOA concentração de renda é vista com preocupação pelos especialistas. Mesmo com tantos miseráveis, a renda per capita de Angola (US$ 2.850) é igual à da Colômbia. Um levantamento feito pelo Semanário Angolense mostrou que 12 dos 20 angolanos mais ricos eram funcionários do governo e 5, ex-funcionários. A família do presidente José Eduardo dos Santos, no poder desde 1979, é proprietária de hospitais na capital angolana, além de ter cotas de participação em diversas empresas. Segundo Pestana, o governo não tem uma política que estimule a diversificação da economia. "O problema é que a indústria petrolífera gera pouco emprego. No nosso caso, apenas 10 mil", diz. A taxa oficial de desemprego em Angola é de 35%. Além disso, a corrupção avança em todos os níveis. "Num levantamento recente, os piores setores eram, em primeiro lugar disparado, a polícia, depois saúde e educação", diz Landu Kama, coordenador do grupo pró-democracia Coligação pela Reconciliação, Transparência e Cidadania. A corrupção policial pôde ser comprovada pela repórter do Estado no aeroporto de Luanda, onde os pedidos por "gasosa" (propina) foram feitos no saguão, na imigração e na área de embarque. Para Pestana, a população não contesta porque a carência é tão grande que as pessoas estão mais preocupadas em resolver seus próprios problemas. "Há uma cultura de resignação. E a presença da igreja só piora a situação porque põe na cabeça das pessoas que a pobreza é uma provação", diz o professor. "Quase não cabem mais velas para a Nossa Senhora nas igrejas de Angola."

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