Angolanos vão às urnas para primeira eleição em 16 anos

Votação pretende eleger Assembléia Nacional; última eleição, disputada em 1992, acabou em guerra

Agências internacionasi,

05 de setembro de 2008 | 07h18

Os angolanos vão às urnas nesta sexta-feira, 5, para escolher membros da Assembléia Nacional na segunda eleição de sua história. O último pleito, disputado em 1992, acabou trazendo de volta a guerra civil de 27 anos que atingiu o país desde sua independência de Portugal. O conflito só terminou depois da morte do ex-líder da Unita (União para a Independência Total de Angola), Jonas Savimbi, em 2002.  Segundo a BBC, dez partidos - que incluem a Unita, que é o principal da oposição, e o MPLA (Movimento para a Libertação de Angola), no poder - e quatro coligações disputam os votos de 8,3 milhões de eleitores registrados. Na eleição de 1992, o MPLA garantiu 129 cadeiras no Parlamento, e a Unita ficou com 70. Os demais 21 assentos ficaram com partidos menores.  Há uma expectativa de que o MPLA mantenha a sua maioria no Legislativo, mas a Unita pode obter uma boa votação, especialmente entre a população do subúrbio de Luanda. A cidade teve um crescimento desordenado durante a guerra, recebendo refugiados das zonas rurais, que vivem em condições precárias, sem eletricidade e água encanada. Os resultados desta eleição devem ser divulgados em, no máximo, 15 dias. O pleito está sendo encarado como um "ensaio" para as eleições presidenciais, previstas para 2009.  Os colégios eleitorais de Angola começaram a abrir suas portas às 7h local (3h de Brasília) com muitas dificuldades pela falta de materiais na maioria deles, Em Luanda, segundo a imprensa local, praticamente nenhum colégio eleitoral abriu antes das 8h30 local (4h30 de Brasília), e apenas em Cabinda, uma zona onde existe um movimento separatista armado, os centros começaram a receber os votos na hora prevista. O próprio presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, que pretendia ser um dos primeiros a votar, às 7h local (3h de Brasília), teve e esperar até as 8h40 (4h40 de Brasília) para depositar seu voto. Apesar do atraso, o presidente angolano afirmou que "o mais importante é que o país seja o vencedor, com a consolidação da democracia". "Iniciamos um novo ciclo, uma nova forma de fazer política", disse José Eduardo dos Santos, que assegurou que o pleito acontece em um ambiente de "tolerância e fraternidade, apesar de alguns incidentes". Alguns dos observadores do pleito destacaram a desorganização no início da jornada e a ausência de materiais em muitas das 14 mil mesas que abririam no país.  Campanha A Unita fez campanha falando em "mudança". O MPLA, por sua vez, quer que os eleitores se apeguem ao "caminho seguro", e mantenham o partido no poder. O período pré-eleitoral deixou alguns angolanos, que só conheceram guerra, apreensivos. Mas durante a campanha não foram registrados incidentes graves.  Políticos de todas as facções, inclusive o presidente José Eduardo dos Santos, no cargo há 29 anos, fizeram apelos por calma. A legislação eleitoral prevê punição para quem incitar a violência. A União Européia (UE), a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC, em inglês), os Estados Unidos e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, enviaram missões de observadores para verificar se há ou não fraude no pleito. A chefe da Missão de Observadores da União Européia, Luisa Morgantini, disse estar "preocupada com alguma falta de imparcialidade da mídia". "Há um problema de diferença entre os partidos grandes e os menores no espaço noticioso das televisões e rádios mas não no que concerne aos direitos de transmissão de propaganda eleitoral", afirmou. Morgantini elogiou, contudo, a organização da eleição. "Apesar das dificuldades de logística, a Comissão Nacional Eleitoral trabalhou de forma eficiente e a campanha decorreu de uma forma pacífica e ordeira."  A febre eleitoral tomou conta das ruas de grandes cidades. Na capital, Luanda, bandeiras e cartazes de slogans e retratos de líderes políticos podem ser vistos em quase todas as ruas. Adolescentes gritam slogans de partidos das janelas de velhas combis que funcionam como lotação e são o grosso do transporte coletivo na cidade. Simpatizantes de partidos se reúnem para cervejadas e churrasco em festas de rua, e em parques e estádios, são promovidos shows.  Petróleo As grandes empresas internacionais, especialmente da área petrolífera, observam Angola com atenção. Elas contribuem para a produção de 2 milhões de barris por dia, que vem das vastas reservas do país africano. Em meados deste ano, Angola superou a Nigéria como o maior produtor de petróleo da África Subsaariana e, com sua exportação de diamantes, vem emergindo como potência regional. Mas apesar do sucesso econômico, 70% da população ainda vive com menos de US$ 2 por dia. O MPLA rebate críticas internacionais dizendo que está fazendo o melhor que pode para reconstruir o país depois de tanto tempo de guerra e alega que dados de população estão desatualizados, dando uma impressão errônea sobre o país. Mas o abismo óbvio entre ricos e pobres - reluzentes shopping centers ao lado de grandes favelas e mendigos sentados à calçada de concessionárias que vendem BMWs - atraiu críticas de grupos como o Human Rights Watch, que acusou o governo de embolsar bilhões de dólares da receita do petróleo.  Representantes do governo e executivos da área petrolífera negam estas alegações e explicam que "o sumiço de dinheiro" se deve é a uma contabilidade ruim feita nos anos de guerra. Seis anos depois do acordo de paz, o país começa a se abrir para o investimento internacional, especialmente de China, Brasil e Portugal, e espera lançar sua própria bolsa de valores em meados de 2009.  O Quênia e o Zimbábue viveram períodos eleitorais conturbados este ano. Analistas não acreditam que possa haver violência generalizada nas eleições angolanas. Diplomatas ocidentais, contudo, vem evitando o uso do termo "livres e justas" quando se referem a este pleito, preferindo falar em "transparentes e com credibilidade". Para eles, a própria realização de eleições já é considerada um avanço.  A Unita acusou o Banco de Desenvolvimento Angolano, que é estatal, de dar US$ 42 milhões para a campanha do MPLA. A instituição negou esta alegação e ameaçou processar a Unita.

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