Angústia cerca porto militarizado por Chávez

Trabalhadores de Puerto Cabello não sabem o que muda com nova regra

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

19 de março de 2009 | 00h00

Edifícios em ruínas e ruas esburacadas não fazem jus à importância da cidade de Puerto Cabello para a Venezuela. Pelo porto que dá nome ao local passam 80% de todos os bens e insumos exportados e importados pelo país (excluído o petróleo). Desde domingo, quando o presidente Hugo Chávez anunciou que tomaria o controle de suas instalações do governo estadual - de oposição - milhares de trabalhadores estão angustiados para saber o que vai mudar."Obviamente, o governo trocará a diretoria do Instituto Porto Autônomo de Puerto Cabello (Inpac, responsável pela gestão do porto), o que me inclui, mas, apesar dos temores, não acredito que demita funcionários de baixo escalão", diz o diretor de Portos do Inpac, Leopoldo Salas. "Já nos contratos com as operadoras, pode haver alterações no médio prazo."Chávez ordenou a militarização dos portos de Puerto Cabello, Maracaibo (petrolífero) e Porlamar (turístico) no domingo. Dias antes, a Assembleia Nacional aprovara uma reforma na Lei de Descentralização, passando para o governo central o controle de portos, aeroportos e estradas. Na terça-feira, Chávez anunciou que a tomada do controle das instalações deve começar por Carabobo, Estado onde fica Puerto Cabello. Mas, até a tarde de ontem, o Inpac não havia recebido nenhum comunicado sobre a transferência administrativa, segundo seu presidente, Abdon Vivas. "Depois que recebermos a notificação formal, tomaremos as medidas legais", disse Vivas ao Estado. "Até agora, o único aviso são os militares - há um tanque em cada uma das sete entradas da nossa sede."Como em Puerto Cabello já havia uma base da Marinha e uma da Guarda Nacional, ao menos nessa localidade a militarização envolveu muito simbolismo, mas pouco deslocamento de tropas. "Estou há oito anos na base de Puerto Cabello", disse um dos guardas. "Apenas mudamos nosso posto de controle em alguns metros."Após a tomada administrativa, as mudanças serão mais drásticas. O governo central fará as normas, supervisionará as atividades no porto e poderá arrecadar cerca de 100 milhões de bolívares fortes (US$ 46 milhões) em taxas. Hoje, desse montante, 75% custeiam as operações do Inpac. Os outros 25% vão para o governo estadual.Chávez alega que a centralização da gestão dos portos, aeroportos e estradas é necessária para acabar com o poder de máfias e traficantes de drogas, mas não nega que também pretende enfraquecer "os esquálidos da oposição". O governador de Carabobo, Henrique Salas, rebate dizendo que, ao menos em seu Estado, a corrupção aumentou no governo anterior, chavista. "Nos últimos anos está cada vez mais difícil trabalhar na Venezuela", diz Adolfo Maduro, de 54 anos, funcionário de uma importadora. Ele lembra as constantes mudanças das regras para as importações. "Com Chávez no poder quem quiser continuar a viver na Venezuela tem de se acostumar às incertezas."

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