Angústia domina redação de jornal alvo do peronismo

Caricatura de Cristina foi o estopim para a guerra aberta pela Casa Rosada contra grupo empresarial que edita o diário ‘Clarín’

Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo,

08 de dezembro de 2012 | 19h10

O silêncio predomina na redação do jornal Clarín, que nos últimos quatro anos tornou-se o alvo de ataques do governo da presidente Cristina Kirchner. "Os telefones não tocam. Fontes do governo não nos telefonam mais, pois existem ordens da Casa Rosada para não falar com a gente", afirma ao Estado a colunista econômica Silvia Naishtat.

"Alguns empresários também têm medo de falar conosco. O governo Kirchner trata mal a imprensa. Mas em nosso caso nos trata como se fôssemos um cão sarnento. Nem sequer nos dão a informação que deveria ser pública. Os colegas estão angustiados, tristes", acrescenta.

O governo está em estado de guerra com o Grupo Clarín desde março de 2008, quando a holding - que cinco anos antes havia sido aliado do casal Kirchner - não respaldou a Casa Rosada no conflito contra os ruralistas.

O estopim oficial para a guerra foi uma caricatura de Cristina feita pelo veterano cartunista Hermenegildo Sábat. A charge mostrava a presidente com um "x" sobre seus lábios carregados de botox enquanto a cabeça de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner (ainda vivo na época) aparecia grudada à da mulher e com a boca aberta, como se estivesse falando no lugar dela. Cristina chamou Sábat de "quase mafioso" perante 100 mil militantes na Praça de Maio. "Há um grande fanatismo político", disse Sábat ao Estado.

A partir das divergências durante a crise ruralista, o Clarín foi alvo de pressões do governo, entre elas, a Lei de Mídia, bloqueios de sindicatos alinhados com o governo nas portas de suas gráficas e blitze da Receita Federal na sede da empresa e na casa de seus executivos.

Pouco antes de morrer, em outubro de 2010, o ex-presidente Néstor Kirchner ordenara a seus subordinados que fizessem o Clarín se dobrar. Os próprios parlamentares kirchneristas referiam-se à legislação como a "Lei Clarín". Alfredo Leuco, colunista do jornal Perfil, indicou com ironia qual é o objetivo de Cristina até o fim do ano: "Ela quer ter a cabeça de Héctor Magnetto (presidente do Clarín) pendurada numa árvore de Natal".

A dez quarteirões do Clarín, o canal Trece, do Grupo Clarín, foi cercado no fim da tarde de sexta-feira por cem manifestantes que jogaram sacolas de tinta vermelha contra as portas do edifício. Armados com paus e pedras, os piqueteiros, de diversas organizações sociais que contam com subsídios do governo Kirchner, exigiram a aplicação total da Lei de Mídia. Dentro do canal o nervosismo aumentou.

"Nunca achei que teria de tomar calmante. Pensei que era coisa de pessoas fracas. Mas não dá. Há um mês estou com medicamentos. Quando não é a presidente gritando contra todos nós é o vizinho que na reunião de condomínio diz para você calar a boca pois pertence ao ‘monopólio’. Dá vontade de largar o jornalismo e me dedicar a uma atividade na qual seja menos agredida", disse ao Estado uma jornalista que trabalha há uma década na empresa.

 

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