Angústia e dor no necrotério de Lima

Setecentos peruanos estavam nesta segunda-feira, véspera do Ano-Novo, na porta do necrotério de Lima com fotografias e documentos de parentes nas mãos, à espera da identificação das vítimas do incêndio que matou 276 pessoas, feriu 200 e deixou 40 desaparecidos, sábado, no centro histórico da capital.Abatidos e angustiados, eles entravam em grupos de três para tentar reconhecer os corpos. A cada incursão, um psicólogo os acompanhava. A decisão de disponibilizar o profissional foi da prefeitura, já que a maioria dos cadáveres está carbonizada.Na longa fila, os familiares mais ?preparados? traziam radiografias das arcadas dentárias de seu entes. Os demais, levavam fotos onde aparecem os dentes do morto.O ministro peruano da Saúde, Luis Solari, assinalou em entrevista coletiva que ?o grau de deterioração dos corpos é tal, que, a cada dez cadáveres, somente dois ou três podem ser reconhecidos ?.A Defesa Civil indicava ontem que, oficialmente, 276 pessoas morreram. Mas as vítimas ?passam de 300?, segundo o comandante general do Corpo de Bombeiros de Lima, Tulio Nicolini.?Desse total, 30% são crianças.? Nicolini disse também que a temperatura no interior dos edifícios incendiados alcançou entre 800 e 1.000 graus.O fogo, provocado pela explosão de fogos de artifício vendidos por um camelô, atingiu outras barracadas e lojas clandestinas do povoado conglomerado conhecido como Mesa Rendonda. A fumaça invadiu as galerias rapidamente, sem dar chance aos clientes de fugir.Na hora da fuga, pais se perderam dos filhosNa porta do necrotério, histórias trágicas se misturavam ao cenário de dor e consternação, como a da mãe de Jackeline Guzmán, de 14 anos. Mãe e filha, vendedoras ambulantes de roupas íntimas em Mesa Redonda, tentavam escapar do fogo de mãos dadas quando foram separadas pela multidão ensandecida. Não se viram mais.Destino parecido teve Ismael Acevedo, que, no momento da tragédia, vendia milho acompanhado do filho de 12 anos. Ao tentar escapar, também foram separados. Ontem, Acevedo aguardava na fila silencioso. E parecia não ter mais lágrimas para derramar.Parentes dos mortos ouvidos pelo de tevê Canal N, pretendiam reclamar os cadáveres sem a autópsia. Eles argumentavam que, como já se sabia que seus parentes foram mortos por intoxicação ou queimaduras, ?o procedimento médico seria desnecessário?.Pelo menos duas investigações ? uma judicial e outra legislativa ? foram iniciadas ontem para descobrir os culpados do incêndio.O jornal Liberación, baseado em testemunhos de vendedores de fogos de Mesa Redonda, denunciou o ministro do Interior, Fernando Rospigliosi, por ter autorizado um importante empresário local, Ricardo Wong, a importar ?toneladas de produtos pirotécnicos?.O diário informou ainda que empregados de Wong voltaram ao local do incêndio para retirar dezenas de caixas de fogos de artifício intactas.

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