Anistia denuncia atrocidades de soldados etíopes na Somália

Governo somali conta com apoio do Exército para conter rebeldes; crianças são mortas como bodes, diz ong

Agência Estado e Associated Press,

06 de maio de 2008 | 10h13

A Anistia Internacional (AI) acusa soldados etíopes de atrocidades como degolar e arrancar os olhos de civis e de cometerem estupros em grupo na Somália. A Etiópia enviou um contingente militar para ajudar o governo patrocinado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no país vizinho. Em um relatório divulgado nesta terça-feira, 6, o grupo de defesa dos direitos humanos pediu à comunidade internacional que detenha esses atos.  De acordo com o documento da AI, todas as partes em conflito estão cometendo crimes de guerra e possivelmente de lesa humanidade, mas ninguém tem sido responsabilizado por eles. O governo etíope respondeu à denuncia da Anistia Internacional qualificando o teor do relatório como "desequilibrado e totalmente errado." Um porta-voz do ministério do Exterior do governo da Etiópia, Wahide Belay, disse nesta terça-feira que centenas de soldados etíopes morreram na Somália lutando contra a insurgência islâmica desde dezembro de 2006, quando a Etiópia enviou o contingente de três mil soldados. O frágil governo de transição somali convidou tropas etíopes a entrarem em seu território no fim de 2006 para ajudar a combater um levante protagonizado por rebeldes islâmicos. Além da insurgência, a Somália já vinha sendo devastada por anos de violência entre milícias rivais mantidos por senhores da guerra locais. A AI denunciou dezenas de casos nos quais testemunhas somalis disseram ter visto soldados etíopes "matando civis como bodes". Em um caso descrito no relatório, "a garganta de uma criança foi cortada por soldados etíopes na frente da mãe dela." Essas vítimas normalmente são deixadas para morrer na rua, deitadas sobre poças de sangue até que os combatentes saiam e permitam que os corpos sejam recuperados. "Isso é totalmente infundado", alegou o ministro etíope da Informação, Bernahu Hailu, em entrevista à Associated Press em Adis-Abeba. "Normalmente, quando saem esses relatórios, eles não são equilibrados. Eles têm de ir lá ver a realidade por eles mesmos. Eles não podem divulgar isso do exterior dizendo que está acontecendo." Saída de Mogadiscio Ainda de acordo com o documento divulgado pela Anistia, mais de 6 mil civis morreram e mais de 600 mil pessoas foram obrigadas a abandonar a capital somali no ano passado. Muitos corpos estão sendo sepultados nos jardins das escolas porque não é seguro chegar ao cemitério, diz ainda o relatório. Mogadiscio, a capital da Somália, tem cerca de 1,7 milhão de habitantes. O país inteiro tem 6 milhões de habitantes. O relatório da AI acusa as tropas etíopes de usarem civis como alvo, particularmente no ataque a uma mesquita. O reide de 19 de abril, contra a mesquita de Al-Hidaya, deixou 21 pessoas mortas, algumas das quais tiveram suas gargantas cortadas. Os etíopes são de religião cristã copta e os somalis, de uma maneira geral, são islâmicos. "O povo da Somália está sendo assassinado, estuprado e torturado. A prática do saque é generalizada e bairros inteiros nas cidades foram destruídos," disse Michelle Kagari, vice-diretora da AI para a África. A organização pede a intervenção direta de tropas da Organização das Nações Unidas (ONU), União Africana e Liga Árabe (a Somália é considerada um país de língua árabe) para acabar com a matança. Há nove meses, a população de Mogadiscio preferia lidar com as tropas etíopes, mais disciplinadas. Os militantes islâmicos então intensificaram seus ataques contra os etíopes e os soldados parecem descontar nos civis, disse Kagari. Aguled, um somali de 32 anos, disse que viu os corpos dos seus vizinhos "trucidados." Ele disse ter visto os corpos dos homens com as gargantas cortadas e largados nas ruas; alguns haviam sido castrados. Ele também informou à AI ter visto mulheres serem estupradas por grupos de até vinte soldados. "A comunidade internacional precisa assumir sua própria responsabilidade por não ter pressionado de maneira consistente o governo somali, e também o governo da Etiópia, a pararem de cometer essas odiosas violações dos direitos humanos," disse Kagari.

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