AI diz que Estado Islâmico foi armado em razão da transferência imprudente de armas

AI diz que Estado Islâmico foi armado em razão da transferência imprudente de armas

Segundo relatório da organização, o arsenal utilizado pelos jihadistas para cometer crimes contra a humanidade no Iraque e na Síria foi fabricado em mais de 12 países, como Rússia, China e EUA

O Estado de S. Paulo

08 de dezembro de 2015 | 10h14

LONDRES - A Anistia Internacional (AI) considera que a transferência irresponsável de armas ao Iraque durante décadas forneceu ao Estado Islâmico (EI) seu arsenal letal, e pede medidas urgentes aos governos para reduzir a proliferação de armamento no país, na Síria e em outras regiões instáveis.

A organização de direitos humanos divulgou nesta terça-feira, 8, em sua sede em Londres um relatório, denominado “Taking Stock: The Arming Of Islamic State", que documenta o emprego de armamento e munição por parte da organização jihadista, responsável pelos recentes atentados em Paris, que deixaram 130 mortos e mais de 350 feridos.

Segundo o relatório, o arsenal que o grupo terrorista utiliza para cometer crimes de guerra e contra a humanidade no Iraque e na Síria foi fabricado em mais de uma dúzia de países, como Rússia, China, EUA e países da União Europeia (UE), apesar de uma grande proporção vir das reservas de armamento do exército iraquiano.

"O amplo e variado armamento empregado pelo grupo armado que se autodenomina Estado Islâmico é um caso sobre como o comércio imprudente de armas alimenta as atrocidades em larga escala", declarou Patrick Wilcken, da AI.

Segundo ele, "a pobre regulação e a falta de supervisão dos enormes fluxos de armas que vão ao Iraque há décadas deram ao EI e a outros grupos armados uma bonança sem precedentes de acesso a armamentos".

A AI afirma que, após assumir o controle de Mossul em junho de 2014, o EI adquiriu reservas de armas iraquianas, fabricadas em nível internacional, que usou para controlar outras partes do Iraque.

Com elas realizaram campanhas de abusos, como assassinatos sumários, estupros, torturas e sequestros, que obrigaram centenas de milhares de pessoas a fugir e se transformar em deslocados ou refugiados.

Segundo a Anistia, que identifica mais de 100 tipos diferentes de armas e munição empregadas pelo EI na Síria e no Iraque, a magnitude do arsenal do grupo terrorista "reflete décadas de irresponsáveis transferências de armamento ao Iraque".

"Isto se agravou por múltiplos erros para tramitar as importações de armas e instaurar mecanismos de supervisão, a fim de evitar o uso impróprio durante a ocupação liderada pelos EUA após 2003", apontou a organização. "Ao mesmo tempo, os controles frouxos sobre as reservas militares e a corrupção endêmica por sucessivos governos iraquianos se somaram ao problema", acrescentou a AI.

A maior parte do armamento convencional empregado pelos terroristas de EI data do período entre a década de 1970 e de 1990, e inclui pistolas, revólveres, morteiros, entre outros, sendo muito comuns, segundo o relatório, os fuzis Kalashnikov da época da União Soviética, de fabricação russa e chinesa.

A guerra entre Iraque e Irã (1980-1988) foi um "momento seminal" no desenvolvimento do mercado de armas moderno em nível global. A AI acrescenta que pelo menos 34 países diferentes proporcionaram armas ao Iraque, enquanto 28 deles faziam simultaneamente o mesmo com o Irã.

A organização também indica que após um embargo de armas da ONU em 1990, houve um aumento massivo nas importações ao Iraque, após a invasão desse país em 2003, e mais de 30 países - entre eles, membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU - forneceram equipamento militar ao exército iraquiano na década passada.

Durante os últimos dez anos, quantidades substanciais desse equipamento acabaram nas mãos de grupos insurgentes, como o EI.

Por essa razão, a AI pede a todos os governos que adotem um embargo completo às autoridades sírias, assim como aos grupos armados da oposição implicados em crimes de guerra, contra a humanidade e outros abusos aos direitos humanos.

"O legado da proliferação de armas e o abuso no Iraque e os arredores da região já destruíram as vidas de milhões de pessoas e representam uma contínua ameaça", comentou WilckenEle ressaltou que "as consequências das transferências de armas imprudentes ao Iraque e à Síria e sua subsequente captura pelo EI devem servir de alerta aos exportadores de armas de todo o mundo". /EFE

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