Aniversário do Armistício evoca momento sensível da história

Em 11 de novembro de 1918, o Armistício foi assinado. Como em todos os anos, toda a Europa celebra hoje o fim da matança mais idiota e fétida da história. Na França, procuraram os últimos sobreviventes de Verdun, de Chemin des Dames, de L´Aisne e de La Marne. Restam 68, centenários. E as histórias, conhecidas ou não, ressurgem.Entre estes episódios, um dos mais surpreendentes aconteceu no primeiro natal da guerra, em 25 de dezembro de 1914, em Flandres, entre Armentières e Ypres. Havia duas linhas de trincheiras, uma alemã e outra inglesa, separadas por algumas dezenas de metros.Repentinamente, da trincheira alemã ouviram-se vozes poderosas cantando "Noite Feliz": "Stille nacht, heilige nacht!". Na trincheira inglesa, os soldados etreolharam-se surpresos. E entoaram o seu "Christmas Carol".Na noite gelada, aplausos irromperam. Depois, soaram gritos de feliz natal em inglês e alemão. Um soldado alemão se levantou de sua trincheira. Um outro. Em seguida, todo o resto. Na "terra de ninguém", onde milhares de balas se cruzaram em dias anteriores, os alemães e ingleses se confraternizaram. Trocaram tabaco e vidros de conserva, mordidas de salchichões por uísque. Riram.Mas aquilo era só o começo. Logo em seguida, acima das linhas alemãs, surgiram árvores de natal. De noite, a velinhas brilhavam como que por milagre. Os ingleses são céticos. A árvore de natal é uma tradição escandinava e germânica. Os ingleses quase não a conheciam. "Será uma cilada?" Não, não era uma cilada. É gente infeliz, descrente diante desse despir do ódio, esgotada pelos combates e vencida pelos vermes e as doenças, e que, mesmo do meio do inferno, gritam pela paz e o amor.Várias cenas semelhantes se repetiram em outros pontos do front - até mesmo nas áreas francesas. Eis o momento de maior supresa: próximo de Armentières, os alemães e escoceses fizeram da "terra de ninguém" um campo de futebol. O tenente alemão Johannes Niemann, do 133º Real Regimento Inglês, conta em suas memórias: "Um soldado alemão apareceu com uma bola de futebol que surgira não sei de onde. Uma verdadeira partida começou. Nós delimitamos os gols com coturnos." Não acharam um árbitro. Nenhuma falta foi cometida, tanto de um lado quanto de outro. Uma só regra foi estabelecida. Como o frio era rígido, o jogo teria apenas uma hora. Os alemães ganharam por três a dois.Segundo alguns testemunhos, a partida foi interrompida ao final de uma hora não por causa do frio, mas porque a bola se despedaçou nos arames farpados que protegiam as trincheiras. (O símbolo é muito bonito. Será que é invenção?). Essas confraternizações duraram alguns dias. Os soldados, aliados ou alemães, depois desse breve retorno ao bom senso, não quiseram mais se massacrar mutuamente. Às vezes, essa trégua durava apenas até a troca dos combatentes por novas tropas.Há que se dizer que os testemunhos sobre esses períodos nebulosos são raros e incertos. Cunha-se uma lenda sobre o "futebol do Natal". Alguém reúne alguns detalhes, melhora as coisas. Pode-se discutir a respeito de uma ou outra anedota, mas em nenhuma hipótese sobre a realidade dessas confraternizações.Um acontecimento inacreditável se desenrolou de fato neste primeiro Natal do horror - inacreditável, apesar de simples e normal: homens que não têm por quê se detestar, que são obrigados a se matar, tentam trocar disparate pela inteligência.Os comandantes não apreciaram este breve retorno à razão. Nos anos seguintes, os três grandes estados maiores tomaram precauções: aos seus olhos, não era admissível que o nascimento de Jesus Cristo fosse obstáculo para o assassinato de dois ou três povos.Este momento sensível da história foi muito comentado - este momento natimorto, em que os homens comuns tentaram contrariar os delírios, as loucuras, os desvarios e o degradante disparatde de ministros e generais. Depois desse "futebol de Natal", que suspendeu por algumas noites o Apocalipse, porque não absorver a lição, neste ano de 2002, em que outros ministros e generais prometem outros Apocalipses?

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