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Annan admite fracasso sobre solução política para Síria

O enviado especial da ONU disse ainda que é necessário dar mais atenção ao papel do Irã, aliado do país

AE-AP, Agência Estado

07 de julho de 2012 | 14h38

BEIRUTE - O enviado especial da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Liga Árabe à Síria, Kofi Annan, admitiu que os esforços para se encontrar uma solução política para a escalada da violência na Síria fracassaram. Annan disse ainda que é necessário dar mais atenção ao papel do Irã, um antigo aliado do governo sírio, e que os países que apoiam os militares no conflito estão tornando a situação ainda pior. "A evidência mostra que nós não fomos bem-sucedidos", disse o enviado em uma entrevista publicada no jornal francês Le Monde.

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Annan é o arquiteto do plano internacional mais proeminente para encerrar a crise na Síria, que, segundo ativistas, já matou mais de 14 mil pessoas desde março de 2011.

O plano de Annan, que abrange seis tópicos, teria que ter começado, em meados de abril, com um cessar-fogo entre as forças fiéis ao governo e os opositores que querem destituir o presidente Bashar Assad. Mas não houve trégua na truculência e agora cerca de 300 observadores da ONU enviados para monitorar o cessar-fogo estão confinados em seus hotéis, em razão da escalada da violência.

Ativistas informaram que mais de 50 pessoas foram mortas neste sábado, além de outras 800 pessoas na semana passada. Annan argumentou que os observadores, que não têm armas, não têm a tarefa de parar com a violência, mas sim de monitorar a adesão das duas partes à trégua.

Ele fez poucas sugestões sobre como o plano pode ser salvo, afirmando apenas que o Irã "deveria ser parte da solução" e que as críticas normalmente são direcionadas para a Rússia, que tem respaldado o regime.

"Poucas coisas são ditas sobre os outros países que enviam armas e dinheiro e que pesam na situação", afirmou o enviado especial, sem nomear qualquer país específico.

Não está claro qual é o papel que Annan atribui ao Irã, um antigo aliado da Síria que tem ficado ao lado do regime durante todo o levante. As relações estreitas de Teerã poderiam fazer do país um interlocutor com o regime, embora os Estados Unidos venham rejeitando a participação da república islâmica nas conferências sobre a crise na Síria.

A Rússia tem fornecido armamentos para o regime de Assad, enquanto não há informações sobre quais países estariam municiando os rebeldes, embora algumas nações do Golfo Árabe tenham se manifestado a favor disso. Os EUA e outras nações ocidentais têm enviado ajuda que não implicam desdobramentos letais, como equipamentos de comunicação.

O levante sírio começou em março de 2011, quando a população foi às ruas para pedir por reforma política. Desde então, o governo tem respondido com uma repressão brutal e vários insurgentes começaram a se armar, deixando de lado os manifestantes pacíficos, o que transformou o conflito em uma confronto armado.

Os opositores do regime afirmaram, neste sábado, que uma ofensiva agressiva do governo tentou retomar áreas dominadas pelos rebeldes nos arredores da cidade de Alepo e perto da capital Damasco.

O Observatório de Direitos Humanos, com sede no Reino Unido e que depende de informações da rede de ativistas de dentro da Síria, considerou o bombardeio a uma série de vilarejos da província de Alepo a ação mais violenta desde o início da campanha do governo para recuperar o controle da região. O grupo disse que os rebeldes da região mataram vários soldados nos últimos meses. Segundo o Observatório, três insurgentes e três civis foram mortos, neste sábado, na província. Cinco soldados aliados ao governo também teriam morrido quando os opositores explodiram um veículo.

O Observatório informou que pelo menos 35 rebeldes e civis foram mortos em todo o país além de 19 soldados do governo, mas não era possível averiguar de maneira independente a informação. Já o governo sírio raramente comenta as operações militares e atribui o conflito a gangues apoiadas por grupos internacionais que pretendem enfraquecer o país.

A violência gerou a preocupação de que os conflitos se espalhem pelo Líbano, que tem relações sectárias e políticas com o país vizinho. Neste sábado, projéteis disparados de território sírio mataram dois civis libaneses e outros dez ficaram feridos, afirmaram autoridades de segurança, no mais recente incidente de que a violência está se alastrando pela fronteira. Uma mulher foi morta quando uma bomba atingiu sua casa na área de Wadi Khalid, no nordeste do Líbano, em um ataque que feriu outras cinco pessoas. Outra bomba atingiu a vila vizinha de al-Hisheh, matando um menino de 8 anos e ferindo seu pai e quatro outras crianças.

Apesar da ampla condenação internacional, o regime de Assad tem se mantido firme. Mas, pela primeira vez em 17 meses de crise, um integrante da cúpula do regime sírio desertou. O general Manaf Tlass, filho de um antigo ministro da defesa que ajudou a conduzir Assad ao poder, deixou o país. A notícia da deserção de um integrante do alto escalão ofuscou a conferência internacional realizada pelos EUA, europeus e parceiros árabes que formam o chamado "grupo de apoio à Síria".

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