Martial Trezzini/AP
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Annan deixa posto de mediador da ONU e solução pacífica para Síria fica distante

Diplomata acusa tanto o regime de Assad quanto o Conselho de Segurança de não contribuírem

Gustavo Chacra, correspondente em Nova York, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2012 | 03h02

NOVA YORK - Depois de quatro meses sem conseguir implementar seu plano para conter a violência entre as forças de Bashar Assad e da oposição, o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan anunciou na quinta-feira, 2, que deixará seu cargo de enviado especial das Nações Unidas e da Liga Árabe para a Síria.

 

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O anúncio ocorreu às vésperas de uma votação, prevista para hoje, de uma resolução na Assembleia-Geral da ONU para exigir que Assad cumpra as determinações do plano de Annan, depois de o Conselho de Segurança ter aprovado, no mês passado, um texto brando, sem incluir ameaça de sanções a Damasco.

Ao explicar sua renúncia, Annan não culpou apenas o regime de Assad. A oposição, as potências regionais e os membros permanentes do Conselho de Segurança também foram alvo de duras críticas por não terem contribuído para a implementação do plano de seis pontos, incluindo o cessar-fogo e a transição. "Aceitei o risco porque acreditava ser meu dever fazer o máximo para ajudar os sírios a encontrar uma solução pacífica para o conflito sangrento. Mas, sem uma séria e unificada pressão da comunidade internacional, tornou-se impossível para mim convencer o governo sírio e a oposição a dar os passos necessários para iniciar o processo político", disse Annan.

 

 "No momento em que precisamos de união entre as potências, com o povo sírio desesperadamente precisando de ação, os países seguem brigando e se insultando no Conselho de Segurança."

Veto

 

A Rússia e a China vetaram, em julho, uma resolução que incluía a ameaça de sanções a Assad. Annan não havia exigido a inclusão desse ponto, mas lamentou, na ocasião, as divergências entre EUA e europeus, de um lado, e Moscou e Pequim, de outro. Ele demonstrou publicamente insatisfação com a oposição americana à inclusão do Irã no grupo de diálogo - Teerã é o maior aliado de Damasco.

Desde que Annan assumiu o posto, em março, o cenário apenas se deteriorou na Síria. Assad usou até mesmo aviões na repressão. A Rússia continuou fornecendo armas para Damasco. Já Arábia Saudita, Catar e Turquia armam abertamente os opositores, enquanto EUA e França admitem ajuda logística.

A oposição praticamente abandonou as manifestações pacíficas e, nos últimos dias, começou a usar armamento pesado e a realizar execuções sumárias de simpatizantes do governo. Algumas de suas facções, de viés jihadista, são acusadas de realizar atentados suicidas.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, elogiou Annan e disse ser "lamentável" a sua saída. A embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, culpou seus adversário no Conselho de Segurança pela saída do enviado e, no fim, voltou a dizer que "os dias de Assad estão contados". Na oposição síria, muitos responsabilizam o ex-secretário-geral por ter dado tempo para Assad seguir com a repressão. O governo sírio lamentou em nota a decisão. Em Nova York, o sucessor de Annan ainda não foi definido pelo secretário-geral Ban Ki-moon e o futuro dos 150 observadores que restam na Síria é incerto. "O mundo está cheio de gente louca como eu, então não se surpreendam se alguém mais decide aceitar essa missão", disse Annan.

Hoje, a maioria dos países deve votar a favor da resolução apresentada por Arábia Saudita e Catar. Os opositores do texto, incluindo a Rússia, lamentavam a falta de menção à violência da oposição. Outros questionavam o fato de os dois países que a redigiram apoiarem a oposição. Segundo o diretor do Centro de Cooperação Internacional da Universidade de Nova York, Richard Gowan, o veto às resoluções são uma mistura de "desonestidade, intransigência e incompetência. "Annan tem razão ao renunciar", disse. "Seu esforço diplomático foi marginalizado."

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