Annan pede a Patriota apoio na crise síria

Enviado da ONU telefona a chanceler e escuta que visões sobre Síria 'coincidem'

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

24 Março 2012 | 03h04

O enviado especial da ONU e da Liga Árabe para Síria, Kofi Annan, pediu ao ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, que use sua influência com russos, chineses e sírios para aproximar posições e acelerar um acordo que leve ao fim da crise síria.

Annan telefonou a Patriota no início da semana. Segundo o Estado apurou, o ex-secretário-geral da ONU falou sobre os seis pontos de seu plano de estabilização da Síria e escutou do chanceler brasileiro que sua avaliação e a do Brasil "são coincidentes". O porta-voz de Annan, Ahmad Fawzi, disse que o enviado para a Síria considera que o Brasil é um negociador que pode ajudar a desatar o nó na Síria.

No telefonema, Annan e o ministro brasileiro concordaram ainda sobre o risco de haver uma "militarização" da crise na Síria e sobre a necessidade de, antes de mais nada, impor um cessar-fogo incondicional em todo o país. "Sem o fim da violência, não pode haver transição política", disse uma fonte do Itamaraty. "Estamos dispostos a dar todo nosso apoio à missão de Annan".

A falta de consenso no Conselho de Segurança da ONU permitiu que o presidente Bashar Assad continuasse a reprimir a oposição, disse o diplomata a Patriota. "É preciso consenso."

Hoje, o enviado da ONU viaja a Moscou e Pequim na esperança de convencer as duas potências a adotar uma posição mais dura em relação a Damasco. Nos últimos meses, os dois países têm resistido aos apelos do Ocidente e da Liga Árabe para que uma pressão maior seja feita sobre o ditador Bashar Assad.

Ontem, em Genebra, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou a quinta condenação em um ano ao regime de Damasco. A resolução pede ainda o fortalecimento do mandato do brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro para que ele possa investigar os crimes na Síria. Mas, uma vez mais, China e Rússia votaram contra, além de Cuba.

Embora o Brasil não integre neste momento o grupo de países que têm direito a voto no conselho de Genebra, o Itamaraty indicou que o País deu "total apoio" ao texto.

Interlocução. A esperança da ONU é a de que o Brasil leve para a mesa de negociações na reunião dos Brics, que ocorre na semana que vem na Índia, a questão da crise na Síria. A presidente Dilma Rousseff irá à cúpula, assim como os chefes de Estado da Rússia, China, Índia e África do Sul.

"Estamos falando com uma série de governos. Mas o contato com o Brasil é muito importante, pois o País ganhou a reputação de ser hábil negociador em assuntos relacionados à paz", disse o porta-voz.

Outra esperança de Annan é que a diplomacia brasileira possa também convencer Bashar Assad a aceitar negociações com a oposição. A avaliação da ONU é que o governo de Dilma manteve um canal aberto com Damasco - algo que outros países ocidentais já perderam.

O embaixador sírio na ONU, Fayssal Al-Hamwi, confirmou a boa relação entre os dois governos. "O Brasil é um país amigo", disse.

O enviado internacional apresentou aos sírios há duas semanas um plano de paz. Assad enviou uma série de respostas à proposta, mas deixou Annan frustrado com a falta de entendimento mútuo.

Uma nova equipe seguiu para Damasco no início da semana para tentar esclarecer alguns pontos. O ex-secretário-geral da ONU estima que ainda não está na hora de ele voltar ao país, pelo menos enquanto não houver uma disposição maior dos sírios em aceitar o projeto.

"Annan e seu time estão atualmente estudando cuidadosamente as respostas sírias e a negociação continua", disse Fawzi.

Para Annan, a medida mais eficiente hoje para fazer os sírios mudarem de posição seria uma união efetiva da comunidade internacional. Sua visão é a de que esse consenso criaria uma pressão que Damasco não poderia mais ignorar.

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