Annan pede ao Irã menos retórica e mais negociação direta

O secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, pediu nesta quinta-feira ao Irã menos retórica e mais "negociações diretas", com o objetivo de resolver a crise gerada pelo polêmico programa de enriquecimento de urânio.Em uma conferência na Universidade de Tóquio, onde Annan recebeu nesta quinta o título de "doutor honoris" causa por seus méritos à frente da ONU, o secretário manifestou sua confiança nas negociações em andamento no Conselho de Segurança da ONU. "Tenho forte esperança de que as atuais negociações do Conselho de Segurança encontrem novas condições para a busca de uma solução negociada" ao conflito, afirmou.Annan repreendeu o Irã por menosprezar a oferta com incentivos feita pela União Européia (UE).A UE está preparando um plano para ajudar o Irã na produção de energia nuclear pacífica, em troca da suspensão do enriquecimento de urânio, que pode ser usado na fabricação de armas nucleares.O plano contém uma série de medidas coercitivas, que seriam aplicadas apenas se o Irã se recusasse a cumprir as exigências de segurança nuclear da Agência Internacional da Energia Atômica (AIEA).A resposta iranianaO presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, rejeitou na quarta-feira a proposta e afirmou que Bruxelas tenta enganar o Irã "prometendo incentivos com o intuito de impedir seu desenvolvimento científico".A União Européia "acredita que está lidando com uma criança, a quem poderia pedir ouro em troca de chocolate", afirmou Ahmadinejad, antes de advertir que "nem as ameaças nem os pequenos incentivos" levarão o povo iraniano a mudar sua postura.Annan manifestou a necessidade "de diminuir a temperatura (desses discursos) e de se evitar ações e retóricas que possam piorar ainda mais a situação".Segundo Annan, "a única forma de se avançar é através das negociações, com todas as partes sentadas à mesa, frente a frente".Por outro lado, com essa retórica fácil e incendiária - explicou -, "só assistiremos ao aumento das tensões globais em um período já volátil, com atrasos nada desejados, quando o que se quer resolver é um problema".Neste conflito, os Estados Unidos e a União Européia exigem que o Irã renuncie ao enriquecimento de urânio e apostam em uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que exija o fim destas atividades por parte de Teerã.O Irã defende que precisa do combustível nuclear para fornecer energia elétrica a sua população, se nega a pôr fim à produção de urânio enriquecido e ameaça dar uma resposta contundente à eventual imposição de sanções pela ONU.As negociações em andamento no Conselho de Segurança colocam de um lado os EUA, Reino Unido e França, e, do outro, China e Rússia.Enquanto os primeiros defendem a adoção de uma resolução vinculativa que obrigue o Irã a acatar as exigências da AIEA, os segundos rejeitam esse caráter, pois acham que daria sinal verde a uma imposição posterior de sanções internacionais.Esse plano de ajuda deve ser apresentado amanhã na reunião do Conselho de Segurança, em Londres.Em Tóquio, Annan ressaltou a necessidade de se acelerar as negociações e de chegar a uma decisão, na qual a comunidade internacional mostre firmeza.O mundo parece estar "em uma encruzilhada", na qual um caminho aponta em direção à restrição das armas atômicas e outro, à aquisição sem limites desses artefatos, disse Annan.Nesta situação, acrescentou, o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) "passa por uma crise devido ao descumprimento e à perda de sua confiança" e, antes que seja muito tarde, "é preciso (fazer) um grande esforço internacional para fortalecer" o acordo."Embora se tenha progredido quanto ao desarmamento, as armas nucleares proliferam no mundo aos milhares, muitas delas prontas para serem disparadas", disse o secretário-geral da ONU.

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