Annan volta à Síria para tentar pôr fim à crise

Presidente egípcio desafia militares e restitui Legislativo de maioria islâmica

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2012 | 03h08

Após admitir que seu plano de paz para a Síria foi incapaz de impedir o derramamento de sangue que ocorre no país do Oriente Médio - que há 16 meses enfrenta um levante com a intenção de depor o ditador Bashar Assad -, o enviado da ONU para a região, Kofi Annan, chegou na noite de ontem em Damasco. Demonstrando seu poderio, as Forças Armadas sírias iniciaram um exercício militar de larga escala no fim de semana, simulando a defesa de ataques externos.

A Marinha disparou mísseis de embarcações e helicópteros, em manobras que, segundo a mídia oficial do país, servem para demonstrar sua habilidade de "defender o litoral da Síria contra qualquer agressão possível". A TV estatal transmitiu cenas do exercício.

"As forças navais conduziram um exercício operacional com munição real no sábado, usando mísseis lançados do mar e da costa, de helicópteros e navios", disse o comunicado oficial, afirmando que as manobras deverão continuar por vários dias.

Nessa nova viagem, a terceira desde que foi nomeado para negociar uma saída pacífica para a crise, Annan pretende "conversar" novamente com o ditador, de acordo com o porta-voz do enviado da ONU, Ahmad Fawzi.

Em uma entrevista transmitida ontem pela emissora alemã Das Erste, Assad acusou os EUA de darem apoio político aos "terroristas" que buscam sua deposição. Segundo o sírio, a Arábia Saudita e o Catar fornecem armas aos rebeldes e a Turquia facilita o contrabando de suprimentos para a rebelião. "Sabemos que (Annan) enfrenta incontáveis obstáculos mas não podemos permitir que este plano fracasse. É um plano muito bom", disse o ditador.

Mais mortes. Pelo menos 35 pessoas foram mortas ontem durante um bombardeio do regime de Assad e confrontos entre as forças do líder e os rebeldes do Exército Sírio Livre. Segundo os ativistas, intensos bombardeios ocorreram em Deir al-Zor e Deraa. / REUTERS, AP e AFP

O novo presidente do Egito, Mohamed Morsi, ordenou ontem que o Parlamento de maioria islâmica fosse reconvocado até a eleição de novos parlamentares, desafiando a autoridade dos generais que o dissolveram com base na decisão de um tribunal - sob a justificativa de irregularidades detectadas na eleição parlamentar realizada em várias etapas, de novembro a janeiro.

No dia 30, Morsi foi empossado pelos generais que estiveram no poder desde a queda de Hosni Mubarak no ano passado. Mas, pouco antes de entregar o poder, os militares limitaram alguns dos poderes presidenciais e conferiram a si mesmos um papel legislativo. A decisão do presidente remove os poderes legislativos do Exército e os devolve a um Parlamento dominado pelo partido de Morsi, a Irmandade Muçulmana, e seus aliados.

A agência estatal de notícias Mena disse que o conselho militar convocou ontem à noite uma reunião de emergência para debater o decreto. Um membro do conselho disse, sob a condição de anonimato, que os generais não tinham sido alertados antecipadamente da decisão tomada por Morsi.

O presidente convocou também a realização de eleições antecipadas depois que uma nova Constituição tenha sido redigida. Isso denotou uma possível concessão ao indicar que a Assembleia, criticada por alguns em decorrência de seu fraco desempenho inicial, não teria um mandato de quatro anos.

"O presidente Morsi ordenou a reconvocação do Parlamento eleito, que deverá manter suas sessões", afirmou um comunicado presidencial lido pelo assessor Yasser Ali. "Uma eleição parlamentar antecipada será realizada dentro de 60 dias após a aprovação de uma nova Constituição", disse Ali.

As reuniões de uma assembleia para a redação de uma nova Constituição ainda estão nos estágios iniciais, atrasadas pelas disputas entre liberais, islâmicos e outros. Analistas dizem que não esperavam um relacionamento tranquilo entre o Exército, laico, e um presidente islâmico, mas acreditavam que Morsi agiria com cautela para evitar um confronto.

"Todos esperavam que isso ocorresse, mas não agora, a não ser que essa decisão tenha sido tomada em conjunto com o conselho militar, algo que me parece difícil de acreditar", disse o analista político Mohamed Khalil a respeito do decreto de ontem.

"Isso significa que ele está tirando o Poder Legislativo do conselho militar e devolvendo-o ao Parlamento. Talvez ele precise de certas leis nesse período para garantir o poder do governo ou para implementar o plano de cem dias" para as primeiras semanas de presidência, disse Khalil. O contexto no qual a decisão foi tomada ainda não está claro, mas o pedido por eleições antecipadas pode aplacar a demanda por um novo Parlamento, disse ele.

"O Exército queria dissolver o Parlamento, mas a Irmandade reagiu. Deve haver algum ponto intermediário com o qual eles possam concordar, caso contrário haverá um impasse interminável e ambos os lados serão obrigados a fazer concessões", disse Shadi Hamid, do Brookings Doha Center. "Esse pode ser um acordo de concessões mútuas para o curto prazo, permitindo que o Exército tenha parte daquilo que quer - um novo Parlamento nos próximos meses - e serve para que os islâmicos evitem uma situação na qual os militares dominem a autoridade legislativa", disse. / REUTERS e NYT

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