REUTERS/ Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/ Carlos Garcia Rawlins

Ânsia de poder foi o calcanhar de Aquiles para o fim de uma era

O medo de que ele fosse perpetuado no poder começou a incomodar uma parte da sociedade boliviana

Laura Núñez Marín, EFE

10 de novembro de 2019 | 21h32

Evo Morales, o primeiro indígena a chegar à presidência da Bolívia por meio de eleições regulares, deu fim ao seu governo após mais de 13 anos de uma administração cheia de luzes e sombras, que o levou a se tornar o presidente com mais tempo no poder na história dessa nação sul-americana.

 

Morales, que chegou à presidência com o apoio de setores socialmente marginalizados historicamente, começou a sofrer desgaste após o referendo de 21 de fevereiro de 2016, no qual 51,3% dos bolivianos se recusaram solapar a Constituição para que ele pudesse ser candidato novamente neste ano.

Mas Morales não se importou e o Tribunal Constitucional endossou sua candidatura para as eleições de 20 de outubro. Esse processo foi questionado pela oposição e pela comunidade internacional e, finalmente, ontem, a Organização de Estados Americanos (OEA) confirmou em um relatório que detectou irregularidades “muito graves”, como manipulação no sistema transmissão por computador e cálculo de resultados e solicitou um novo pleito. 

Evo, que em 26 de outubro completou 60 anos, é líder do Movimento ao Socialismo (MAS). O político nasceu em uma comunidade andina no seio de uma família humilde. Quando jovem aprendeu a comercializar lhamas. Também foi padeiro, pedreiro e trompetista.  Ele então migrou para Chapare, uma área de produção da folha de coca, no departamento de Cochabamba, onde ascendeu como líder sindical, que o catapultou à presidência em 2006 pela primeira vez.  Em sua despedida neste domingo, prometeu voltar a Chapare, diante de boatos de que vá fugir do país.

Os anos mostraram contradições entre seu discurso e sua forma de agir, principalmente no cuidado com o meio ambiente ou em sua condição indígena, que desgastou sua imagem.  Havia um Evo Morales que foi a organizações internacionais para falar sobre Pachamana, Mãe Terra e povos indígenas.  E outro, que governou a Bolívia aprovando decretos que autorizavam a queima controlada, causando grandes incêndios, mesmo em espaços de preservação permanente. 

Sem medo de enfrentar os Estados Unidos, expulsou o embaixador americano do país no início de seu primeiro governo. Também levou, sem sucesso, o Chile ao Tribunal de Haia, no eterno conflito entre as duas nações sobre uma saída para o mar. Anos depois, ele foi repreendido por vender seu país a multinacionais na China ou manter aliados como o presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

Embora cinco anos atrás ele tenha dito que no final dessa gestão gostaria de se aposentar, encontrou uma maneira de defender novamente sua continuidade no poder, de uma forma que foi muito questionada. Neste momento, o medo de que ele fosse perpetuado no poder começou a incomodar uma parte da sociedade boliviana. Após as eleições de 20 de outubro, essa massa descontente, que foi às ruas alegando que havia fraude eleitoral, com episódios violentos que deixaram três mortos.

Na sua despedida pela TV, agradeceu seu apoiadores. “Muito obrigado por se juntar a nós", exclamou em despedida depois “treze anos, nove meses e 18 dias” no poder desde sua primeira posse, em 22 de janeiro de 2006. Ao final, alertou: “A luta não termina aqui”.

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