Antes casada à força do que refugiada

Jovens sírias que fugiram para a Jordânia não escapam de casamentos arranjados pela família

KAMAL TAHA, FRANCE PRESSE , O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2013 | 02h04

Com um conflito na Síria que parece não ter fim, os refugiados na Jordânia têm oferecido suas filhas adolescentes em matrimônio para ter proteção e escapar da miséria. Abu Mohamed, a contragosto, autorizou sua filha adolescente a se casar com um rico saudita de 40 anos, esperando que ela tenha uma vida melhor e a situação econômica da família também melhore.

"Era a última coisa que queria fazer", afirmou Abu, de 50 anos, diante da sua barraca no campo de refugiados de Zaatari, norte da Jordânia, onde vivem mais de 160 mil sírios, o equivalente à população da quinta maior cidade da Jordânia. Mohamed, com seis filhos, garante que o genro saudita "prometeu ajudar até a crise terminar". "Deus sabe quando isso ocorrerá", disse.

O caso não é o único. "Homens jordanianos e outros árabes chegam com frequência para perguntar se conheço refugiadas sírias para casar", disse Fares Hocha, vendedor de eletrodomésticos em Zaatari.

Duas filhas do sírio Said, de 15 e 16 anos, casaram-se no mês passado. "Estou sem trabalho, sou paraplégico e não posso atender às necessidades da família", lamentou. "O campo é um lugar perigoso e tenho medo por minhas filhas. Achei que o casamento era a solução."

Comerciantes não são os únicos procurados por homens em busca de jovens para se casar. A associação beneficente Kitab wa Sunna, que presta ajuda a milhares de refugiados, diz receber dezenas de pedidos de homens em busca em uma mulher em Zaatari.

"Somos uma associação humanitária e queremos nos concentrar ema nossa missão. Não desejamos ser implicados nisso, pode criar problemas", explicou Zayed Hama, chefe da instituição.

Outros perceberam que podem fazer negócios com esses casamentos. Na principal avenida de Zaatari, Abu Ahmed há seis meses aluga vestidos de noiva por cerca de 20 por dia. "Diariamente alugo pelo menos um", afirmou.

A Jordânia acolhe pelo menos 500 mil sírios em seu território. Entre os refugiados, 70% são mulheres e crianças, de acordo com a ONU. "Os sírios explicam que, mesmo que os casamentos precoces fossem frequentes em seu país antes da crise, há mudanças desde que chegaram à Jordânia. A principal é a crescente diferença de idade entre os cônjuges", diz uma representante da Unicef.

No Ministério do Interior da Jordânia, contudo, segundo as estimativas, o número de casamentos está "na média", com 1.029 entre jordanianos e sírias desde a chegada dos primeiros refugiados no país, em 2011. E há 331 sírias casadas com cidadãos não jordanianos, indica o governo.

A organização Campanha Nacional para a Proteção das Mulheres Sírias vem alertando sobre esses "pedidos de casamento. Em sua página no Facebook, seguida por mais de 20 mil internautas, a organização denuncia uma "escravidão dissimulada" e "o comércio do sexo". / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.